Páginas

domingo, 6 de abril de 2025

Repensar a Escola: por uma Educação humana, crítica e emancipadora

 


"Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo." - Paulo Freire (1921-1997)

 


Atribuir à escola a responsabilidade exclusiva pela solução dos problemas sociais é um erro recorrente. A educação escolar é fundamental, sim, mas não pode carregar sozinha o peso de transformar o mundo por si só e de forma isolada. Essa expectativa utópica de mitificação da escola está descolada da realidade e sobrecarrega uma instituição que já enfrenta desafios profundos e complexos.

 

Um dos aspectos mais sensíveis da atual configuração escolar do Ensino Médio (Educação Básica) é o abismo geracional que se instaura entre professores, cuja média de idade gira em torno dos 35 anos, e os adolescentes, em torno de 13 anos. Essa diferença não é apenas numérica: ela expressa uma crise de linguagem, de referências culturais e de expectativas de vida. Nesse cenário, a escola precisa ser, mais do que nunca, um lugar de diálogo — não de imposição.

 

O cotidiano escolar, por sua vez, revela tensões estruturais graves. As relações institucionais entre professores, alunos, agentes educativos e Secretarias de Educação são marcadas por entraves logísticos e administrativos, com destaque para problemas recorrentes como transporte escolar precário e alimentação escolar insuficiente, entre outros problemas viscerais. Esses fatores comprometem a qualidade do processo educativo, especialmente em regiões periféricas e rurais.


É preciso romper com a visão romantizada da escola como um espaço apenas de transmissão de conteúdos ou de redenção social. A escola deve ser entendida como um território de debates sociais, um espaço aberto ao pensar, ao filosofar, ao questionar. Um lugar onde se possa perguntar sobre a existência humana, a realidade, o belo, a estética, e os fundamentos da vida em sociedade. É também, necessariamente, um espaço político — de formação da cidadania, da consciência crítica e do raciocínio lógico.


Ao longo dos anos, tem-se observado um crescimento preocupante no número de alunos com distúrbios emocionais, além do aumento de casos de suicídio na adolescência. Os próprios professores também têm sido cada vez mais medicalizados, reflexo de uma pressão institucional e emocional muitas vezes invisibilizada. Por isso, é urgente reconhecer a dimensão emocional do processo educativo. O ambiente escolar precisa ser também um lugar de cuidado, escuta e construção socioafetiva.


A sala de aula deve favorecer experiências significativas, e não apenas a reprodução de conteúdos. O conhecimento nasce da curiosidade, da dúvida, da inquietação. Educar não é apenas ensinar: é transformar. É criar condições para que o estudante se reconheça como sujeito ativo do seu processo de aprendizagem. O aluno não pode continuar sendo tratado como um receptáculo passivo; ele precisa ocupar um lugar de protagonismo.


Nesse processo, é fundamental distinguir o papel do professor e do educador. Nem todo professor é, necessariamente, um educador no sentido mais amplo da palavra — aquele que media, escuta, aprende junto. A verdadeira educação favorece a autonomia, a liberdade de expressão e a valorização das múltiplas formas de saber. A escola, por isso, deve ser espaço para a diversidade — de ideias, de corpos, de culturas e de vozes.


A educação, entendida como processo epistemológico, deve ser emancipada e emancipadora. Um processo que integra razão e emoção, lógica e afeto, indivíduo e coletivo. A escola precisa dialogar com as famílias e com a sociedade, numa perspectiva de integração e corresponsabilidade. Só assim será possível construir um projeto educativo realmente transformador, que respeite a singularidade de cada sujeito e contribua para uma sociedade mais livre, plural e consciente.


Assim e simplesmente,

Vinicius Seabra

[escrito em 03 de Abril de 2025]

domingo, 9 de março de 2025

Só mantenha a direção!

"Velocidade é irrelevante se você estiver indo na direção errada." – Stephen Covey (1932-2012)


A jornada acadêmica está tomada por um frisson de urgência. Alunos querem diplomas antes de amadurecerem ideias, professores querem publicar antes de consolidarem saberes, universidades querem produtividade antes de formarem pensadores. Corre-se. E corre-se muito. Mas corre-se para onde?

A pressa, vendida como eficiência, gera um paradoxo: quem avança sem rumo não progride, apenas se desgasta. A academia, espaço por excelência do aprofundamento e da construção do conhecimento, tem sido reduzida a uma pista de corrida onde o único critério de sucesso é a chegada – não importa o percurso, nem a consistência do que foi aprendido. No entanto, como já asseverou Ortega y Gasset, "a rapidez que não se detém para refletir é a mesma que atira o homem no abismo."

O problema não está em querer chegar longe, mas em querer chegar rápido sem saber onde se quer estar. A ciência não se faz com pressa, mas com precisão. A compreensão profunda de um tema não se dá em velocidade 5x, como em vídeos didáticos acelerados. O pensamento precisa de maturação, de revisões, de dúvidas. A ilusão da velocidade acadêmica nos faz confundir informação com conhecimento, acúmulo de créditos com sabedoria, e produção em massa com contribuição intelectual.

O estudante que se preocupa apenas em terminar rápido raramente constrói algo sólido. O pesquisador que apenas multiplica publicações sem refletir sobre sua relevância dificilmente transforma o campo de estudo. A universidade que apenas foca em números e rankings pode até produzir especialistas, mas dificilmente formará intelectuais.

Direção é melhor que velocidade. Saber para onde se vai é mais importante do que chegar rápido. Aquele que mantém o rumo, mesmo que avance a passos curtos, chegará a um destino mais consistente do que aquele que apenas se apressa sem clareza de propósito.

Portanto, antes de acelerar, olhe o mapa. Antes de correr, defina a rota. Mais vale um caminho percorrido com consciência do que uma corrida desesperada sem destino.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra
[escrito em 05 de Março de 2025]

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Somos todos professores!


"A educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Somos todos professores! É óbvio que nem todos nós nos encontraremos nos palanques de uma sala de aula nos padrões convencionais e formais da educação, mas estamos todos nós inseridos na prática pedagógica do cotidiano, isto porque não é apenas a escola/universidade que ensina, mas sim toda e qualquer interação social intencional e movida de sentidos. Desta forma, há ao menos cinco instâncias educativas, ou, instâncias socializadoras, a saber: a escola, a religião, a família, o mundo do trabalho e a mídia.

A escola/universidade é o foco central das discussões pedagógicas, didáticas e educativas, pois esta representa, nuclearmente, a essência da prática educativa. Na escola, intenta-se “ensinar” os indivíduos para o viver em sociedade, ao menos, para a sociedade congênere da própria escola. Aplica-se, portanto, medidas coercitivas, educativas, punitivas, compensatórias, dialógicas, explicativas, teóricas e etc. A proposta final é “devolver” para a sociedade um individuo ajustável às expectativas sociais, eis aí a necessidade de diplomação como forma de diferenciação, distinção e identificação.

A religião também é um campo, perigosamente, fértil de padrões educativos, quer seja na representa exata de salas de aulas de catequeses e/ou discipulados, assim como na própria representa pública da missa/culto/celebração/reunião. Neste contexto, intenta-se ensinar valores morais que perpassam a vida dos fieis/adeptos amoldando-os aos padrões religiosos. Uma simples predicação religiosa traz consigo elementos educativos: persuasão, convencimento, conhecimento e sociabilidade. Há de se destacar que no Brasil, nos primeiros anos, a religião e educação escolar andaram de mãos dadas, o que produziu mudanças eternas em ambas as instituições.

A família é um dos mais relevantes centros educacionais desde os tempos antigos, pois é neste local intangível que as pessoas tendem a passar a maior parte de suas vidas, especialmente nos primeiros anos de vida, consequentemente, é evidente que este local vai ser impregnado de práticas educativas. Na família os indivíduos aprendem os significados de conceitos subjetivos e abstratos como: amor, ódio, esperança, desilusão, saudade, maldade, carinho, afeto, confiança, fraternidade, desamparo, entre outros possíveis distintivos que mesmo nunca sendo ensinado nos padrões formais hão de ser aprendidos e incorporados na vida.

O mundo do trabalho também ensina, quer seja no conhecimento tácito das práticas experienciáveis da vivência ou pela própria educação orientada para o trabalho. O trabalho como concebemos modernamente é decorrência do que se tornou o trabalho a partir da Revolução Industrial, isto é, uma constate adequação junto à evolução das máquinas/tecnologias e as exigências do consumo. Logo, o trabalhador precisava, e ainda hoje precisa, estar em constante processo de aprendizado para continuar útil ao processo produtivo e sendo assim, não ser descartado como obsoleto e ultrapassado.

A mídia, nas mais variadas formas de visibilidade, também fomenta práticas educativas com intencional propósito. Neste sentido, não se concebe a existência de uma mídia isenta de pré-conceitos, de pré-intenções, de imparcialidades e de neutralidades. A mídia serve aos padrões modernos como um doutrinador trejeitado de entretenimento. A ausência de uma sala de aula com todo o aparato escolar não torna a mídia menos eficaz no processo de convencimento, de formação de opinião e de reprodução de práticas sociais.

Enfim, somos todos professores! Quer seja na escola, na religião, na família, no mundo do trabalho e na mídia (e, entre outras formas). Estamos todos ensinando e sendo ensinados, simultaneamente, instantaneamente e conjuntamente. Educação, então, é um processo inerente à existência/atividade humana. A própria vida se torna um processo educativa/pedagógico depositando aos seres vivos a capacidade de compreender, criticar, pensar, duvidar, negar, questionar e etc. Somos todos professores não porque somos importantes, mas sim porque isto é importante para nós.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 27 de Fevereiro de 2018]

terça-feira, 18 de julho de 2017

Da distância entre a tristeza e a decepção


"(...) A vida é triste, o mundo é louco! (...) A vida continua, indiferente!”
Mario Quintana (1906-1994)

A tristeza produz lágrimas, que por sua vez desvela um coração enfraquecido, despido e desnutrido de esperança. Estranhamente, a tristeza faz parte da vida, desde o começo até os mais sublimes finais felizes, ainda sim, a tristeza esta e estará lá. Tristeza é um estágio transitório, ainda que com sintomas permanentes. Portanto, ninguém consegue ser triste por toda uma vida, assim como, igualmente, ninguém consegue ser feliz por tempo suficiente. As lágrimas são estes registros de quando a alma não suporta tamanha dor, restando apenas abandonar o corpo, escorrendo para bem longe do coração, se possível caindo na terra, e quiçá, regando o chão seco de vidas sofridas, incompreendidas e desmedidas. Tristeza produz lágrimas.

A decepção não produz lágrimas. A decepção está um passo além da tristeza, é onde as lágrimas não mais têm forças para serem expelidas, é onde a pasmalidade dos fatos produz apenas silêncio e olhares distantes. A decepção é sempre mais profunda e mais perversa que a tristeza, pois quando se está triste se chora, mas quando se está decepcionado não mais consegue chorar. A decepção é o resultado de sucessivas tristezas, que de tanto se repetirem produz um estado doentio de normose existencial. Decepção é quando nos acostumamos com a tristeza, por isto não há espaço para as lágrimas, pois o choro nunca resulta da cotidianização dos desafetos. A decepção é mais sombria que a tristeza, é mais miserável que a dor, é mais nefária que a aflição. Decepção não produz lágrimas.

A distância que há entre tristeza e decepção é a mesma distância que se percorre até um sonho abandonado, de uma esperança esquecida, de uma palavra não dita e de uma história não vivida. A distância que há entre ambas é variável, pois a tristeza de uma pessoa pode ser mais longa que de em outras histórias. De contrapartida, a decepção de alguns pode ser mais curtinha que em outros corações. Entretanto, uma coisa é certa, a decepção sempre está logo depois da tristeza. Então, cative sua tristeza e jamais se encante com a decepção, pois enquanto tristeza é rio que passa, decepção é lama incrustrada que sufoca. Então, alegre-se por conseguir ficar triste, pois as lágrimas se renovam. Triste mesmo é encontrar-se em decepção, pois ali nada mais importa.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 15 de Julho de 2017]