Atribuir à escola a responsabilidade exclusiva pela solução dos problemas sociais é um erro recorrente. A educação escolar é fundamental, sim, mas não pode carregar sozinha o peso de transformar o mundo por si só e de forma isolada. Essa expectativa utópica de mitificação da escola está descolada da realidade e sobrecarrega uma instituição que já enfrenta desafios profundos e complexos.
Um dos aspectos mais sensíveis da atual configuração escolar do Ensino Médio (Educação Básica) é o abismo geracional que se instaura entre professores, cuja média de idade gira em torno dos 35 anos, e os adolescentes, em torno de 13 anos. Essa diferença não é apenas numérica: ela expressa uma crise de linguagem, de referências culturais e de expectativas de vida. Nesse cenário, a escola precisa ser, mais do que nunca, um lugar de diálogo — não de imposição.
O cotidiano escolar, por sua vez, revela tensões estruturais graves. As relações institucionais entre professores, alunos, agentes educativos e Secretarias de Educação são marcadas por entraves logísticos e administrativos, com destaque para problemas recorrentes como transporte escolar precário e alimentação escolar insuficiente, entre outros problemas viscerais. Esses fatores comprometem a qualidade do processo educativo, especialmente em regiões periféricas e rurais.
É preciso romper com a visão romantizada da escola como um espaço apenas de transmissão de conteúdos ou de redenção social. A escola deve ser entendida como um território de debates sociais, um espaço aberto ao pensar, ao filosofar, ao questionar. Um lugar onde se possa perguntar sobre a existência humana, a realidade, o belo, a estética, e os fundamentos da vida em sociedade. É também, necessariamente, um espaço político — de formação da cidadania, da consciência crítica e do raciocínio lógico.
Ao longo dos anos, tem-se observado um crescimento preocupante no número de alunos com distúrbios emocionais, além do aumento de casos de suicídio na adolescência. Os próprios professores também têm sido cada vez mais medicalizados, reflexo de uma pressão institucional e emocional muitas vezes invisibilizada. Por isso, é urgente reconhecer a dimensão emocional do processo educativo. O ambiente escolar precisa ser também um lugar de cuidado, escuta e construção socioafetiva.
A sala de aula deve favorecer experiências significativas, e não apenas a reprodução de conteúdos. O conhecimento nasce da curiosidade, da dúvida, da inquietação. Educar não é apenas ensinar: é transformar. É criar condições para que o estudante se reconheça como sujeito ativo do seu processo de aprendizagem. O aluno não pode continuar sendo tratado como um receptáculo passivo; ele precisa ocupar um lugar de protagonismo.
Nesse processo, é fundamental distinguir o papel do professor e do educador. Nem todo professor é, necessariamente, um educador no sentido mais amplo da palavra — aquele que media, escuta, aprende junto. A verdadeira educação favorece a autonomia, a liberdade de expressão e a valorização das múltiplas formas de saber. A escola, por isso, deve ser espaço para a diversidade — de ideias, de corpos, de culturas e de vozes.
A educação, entendida como processo epistemológico, deve ser emancipada e emancipadora. Um processo que integra razão e emoção, lógica e afeto, indivíduo e coletivo. A escola precisa dialogar com as famílias e com a sociedade, numa perspectiva de integração e corresponsabilidade. Só assim será possível construir um projeto educativo realmente transformador, que respeite a singularidade de cada sujeito e contribua para uma sociedade mais livre, plural e consciente.
Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra
[escrito em 03 de Abril de 2025]



