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sábado, 30 de janeiro de 2016

Entre fluidez, liquidez e estupidez


“Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam”.
Martin Luther King Jr (1929-1968)

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim num elevador. Preferimos olhar uma tela com sorrisos e selfies ensaiadas, do que olhar para o lado e ver semblantes que espelham nossas vidas modernas. Preferimos enviar uma imagem com “bom dia” para grupos virtuais, do que saudar com um “bom dia” o desconhecido vizinho junto ao elevador. Tristemente, perdemos a habilidade de conversar, hoje, apenas sabemos teclar. Neste mundo com tanta fluidez e liquidez descobrimo-nos na estupidez.

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim no carro. Quando as luzes vermelhas do sinaleiro ficam acesas, como que numa visível metáfora de que é tempo de parar, preferimos acelerar nossas percepções e mais uma vez sermos abduzidos para aquelas coisas já ditas e para as mefistofélicas correntes de solidariedade de gente que não mais sabe olhar para fora do vidro de um carro com ar condicionado. Tristemente, perdemos a habilidade de perder tempo, hoje, apenas queremos ganhar tempo. Neste mundo com tanta fluidez e liquidez descobrimo-nos na estupidez.

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim num restaurante. Comer não mais é um momento prazeroso de deleites e sensações coletivas, como tenta resgatar o movimento slow food. Comer se tornou apenas um ato selvagem de encher a barriga para continuar a trabalhar. Nesta insanidade compartilhada, os seres místicos das macumbas e das oferendas à Iemanjá acabam sendo os mais coerentes. Tristemente, perdemos a sensibilidade do paladar e, hoje, apenas nos tornamos mutantes com habilidades touch screen. Neste mundo com tanta fluidez e liquidez descobrimo-nos na estupidez.

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim na igreja, em casa, numa festa, na fazenda, no amor, na família, nas brigas, nas paixões, nas noites, na cama, no banheiro... enfim, não somos o que teatralizamos todos os dias para nós mesmos, somos apenas aquilo que fazemos todos os dias com os outros. Quer saber quem você é? Desligue o celular e “conheça-te a ti mesmo” (aforismo grego). Há vida longe do “zap zap”, há vida para além das conexões virtuais, há vida após o celular. Então, fuja da fluidez, ignore a liquidez (numa perspectiva de Zygmunt Bauman) e verás a estupidez.

Ps.: Por isto, quando eu estiver off-line, não ligue, apenas espere, retorno quando der, se realmente precisar. Por isto, quando eu não comentar algo no grupo do “zap zap”, não desespere, não estou chateado com alguém, apenas estou olhando para o lado, contemplando a luz vermelha. Por isto, quando eu ficar em silêncio, não tente entender o que estou pensando, pois provavelmente não estarei pensado, apenas desligando-me, saboreando uma boa galinhada com pequi. Por isto, aproveite esta mensagem e desligue seu celular um pouco, fale um bom dia no elevador, e principalmente, escute o bom dia de outros. Enfim, se eu não responder, é porque estou procurando as perguntas, e pra isto preciso deligar um pouco o meu celular.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 30 de Janeiro de 2016]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Da contradição em ser contraditório


“Quero dizer o que eu penso e sinto hoje, com a condição de que talvez amanhã eu vá contradizer tudo”.
Ralph Waldo Emerson (1803-1882) 

Da contradição em se ter liberdade de contradizer, é o que nos torna extremamente coerentes. Por isto a lógica moderna é ser pós-moderno para tentar parecer não viver nesta turba de conflitos inexplicáveis, que tanto nos explicam. Sendo assim, o sucesso pode ser facilmente delimitado, marcando uma territorialidade com giz de cera, demonstrando com riscos ao chão os limites do fracasso. Portanto, é blasfêmia qualquer forma de categorização, sendo por si só uma bizarrice contraditória, uma tentativa infame de ordenar os organismos rebeldes.

A contradição permite desvelar os temores daqueles que insistem em mudar para nunca terem que mudar. Preferem gritar em seus próprios ouvidos as diretrizes de um caminho já percorrido, que de tão desgastado ficam a pisar onde outros já pisaram, mesmo que com o glamour de originalidade aplausível. Gente em efeito manada, que corre sem saber por que, nem pra que, simplesmente corre em direção ao nada. Que contraditoriamente, lá onde fica o nada, quem sabe, talvez, podem-se descobrir os significantes de tantas normoses, e enfim, entender tudo.

Contra o dizer pode não ser tão contradizente como se mostra, pode ser apenas uma releitura distante, uma recostura às avessas, ou até quem sabe um óculos inadequado para uma realidade adequada. Afinal, somos feitos de desmedidas exigências que ecoam no cósmico da visibilidade. Sendo assim, tudo pode parecer sem sentido, e ai sim ganhar sentido. Sentido não de rumo, não de direção, mas sim sentido de sentido – tipo estas coisas que não se explicam, mas que todos sempre entendem. Entendeu?

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 29 de Dezembro de 2015]

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sobre danças, músicas e outras insanidades


“O homem tem medo de sua espontaneidade (...) o homem temerá viver apelando à sua espontaneidade até que aprenda a provocá-la”.
Jacob Levy Moreno (1889-1974) 

Enquanto pequenos dançamos, sem ninguém nos ensinar, sem ninguém nos constranger. Dançamos, pois é isto que se faz quando se está feliz. Dançamos sem saber os passos ao certo, sem ter uma coreografia coletiva a ser imitada por todos, sem ter muita ginga ou molejo. Não era preciso saber dançar para dançar. Simplesmente dançávamos. Dançar é um ato de liberdade, ousadia e rebeldia. Dançar é confrontar o adestramento moderno de ritmos enjaulados e bailarinos emudecidos. Dançamos, pois é isto que fazemos quando somos.

Lá também cantávamos, desafinados, meio gritado, um tanto quanto engargantado. Contudo, isto não importava, é preciso por pra fora toda sonoridade que ecoa dentro de nós. É preciso dar voz e ritmo a nossas desilusões e ilusões. Quando pequenos não precisávamos saber a letra da música para cantarmos, afinal, cantar não é uma função decorativa do cérebro. Cantar é, antes de tudo, um ato de neurose eufórica de existência humana. É um estereótipo de nossas desconformidades. Cantávamos, pois é isto que embala nossos corações e razões. Cantamos, pois é preciso romper o silêncio do que somos.

Depois de tantas, crescemos. Então, nos esquecemos de como se dança, ficamos envergonhados por não saber os passos repetitivos dos iguais. Lá, dançar não é pra todos, é espetáculo a ser admirado, contemplado, mas nunca partilhado. É muito triste não poder mais dançar, mas mais triste é admirar os que dançam, pois isto é contemplação nostálgica daquilo que um dia fomos. Quando dançar for para poucos, então, muitos perdem. Dançar é tipo saltar, desestabilizar o corpo, confundir as possibilidades... dançar tem que ser mais que harmonizar, é preciso que haja destoação. Dançar é, portanto, uma apresentação única, às vezes, na maioria das vezes, sem espectadores. Dançar é o que fazemos quando descobrimos o que somos.

Lá pelas tantas, daquela mesma época, nos dizem que cantar é uma arte clássica, com difíceis melindres artísticos. Para tanto, elitizaram a música. Tornaram as notas inalcançáveis, ditaram as letras do que é aceitável, rotularam a cultura popular regional como algo inaudível. Tristemente, e inevitavelmente, criaram o karaokê. Neste tempo, catamos apenas as letras já cantadas, no ritmo já dado, nas notas já postas. Enlatamos a música. Cantar bem poderia ser tipo aquelas frases incognoscíveis que balbuciávamos quando pequenos, que tinham todo sentido para além das palavras. Cantar bem poderia voltar a ser despretensioso, sem sequência predeterminada, para dar o tom que estiver disponível para colorir quem de fato somos.

Cantar e dançar são expressões de nossa identidade social, é o que nos define, nos distingue, é o que desnuda nossa mais bela insanidade idiossincrática. Perdemos muito por só andar e só falar, por só correr e gritar. Perdemos muito por não mais conseguirmos nos expor ao ridículo da música e do baile. Tristemente, nos marionetamos aos limites dos sons pré-formatados e igualmente nos fantocheamos na sutileza das coreografias pré-estabelecida. Enfim, domesticamos nossa insanidade, e a comprovação de tal genocídio artístico é que perdemos a habilidade de dançar e cantar, como fazíamos enquanto pequenos.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 10 de Outubro de 2015]