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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Somos todos professores!


"A educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Somos todos professores! É óbvio que nem todos nós nos encontraremos nos palanques de uma sala de aula nos padrões convencionais e formais da educação, mas estamos todos nós inseridos na prática pedagógica do cotidiano, isto porque não é apenas a escola/universidade que ensina, mas sim toda e qualquer interação social intencional e movida de sentidos. Desta forma, há ao menos cinco instâncias educativas, ou, instâncias socializadoras, a saber: a escola, a religião, a família, o mundo do trabalho e a mídia.

A escola/universidade é o foco central das discussões pedagógicas, didáticas e educativas, pois esta representa, nuclearmente, a essência da prática educativa. Na escola, intenta-se “ensinar” os indivíduos para o viver em sociedade, ao menos, para a sociedade congênere da própria escola. Aplica-se, portanto, medidas coercitivas, educativas, punitivas, compensatórias, dialógicas, explicativas, teóricas e etc. A proposta final é “devolver” para a sociedade um individuo ajustável às expectativas sociais, eis aí a necessidade de diplomação como forma de diferenciação, distinção e identificação.

A religião também é um campo, perigosamente, fértil de padrões educativos, quer seja na representa exata de salas de aulas de catequeses e/ou discipulados, assim como na própria representa pública da missa/culto/celebração/reunião. Neste contexto, intenta-se ensinar valores morais que perpassam a vida dos fieis/adeptos amoldando-os aos padrões religiosos. Uma simples predicação religiosa traz consigo elementos educativos: persuasão, convencimento, conhecimento e sociabilidade. Há de se destacar que no Brasil, nos primeiros anos, a religião e educação escolar andaram de mãos dadas, o que produziu mudanças eternas em ambas as instituições.

A família é um dos mais relevantes centros educacionais desde os tempos antigos, pois é neste local intangível que as pessoas tendem a passar a maior parte de suas vidas, especialmente nos primeiros anos de vida, consequentemente, é evidente que este local vai ser impregnado de práticas educativas. Na família os indivíduos aprendem os significados de conceitos subjetivos e abstratos como: amor, ódio, esperança, desilusão, saudade, maldade, carinho, afeto, confiança, fraternidade, desamparo, entre outros possíveis distintivos que mesmo nunca sendo ensinado nos padrões formais hão de ser aprendidos e incorporados na vida.

O mundo do trabalho também ensina, quer seja no conhecimento tácito das práticas experienciáveis da vivência ou pela própria educação orientada para o trabalho. O trabalho como concebemos modernamente é decorrência do que se tornou o trabalho a partir da Revolução Industrial, isto é, uma constate adequação junto à evolução das máquinas/tecnologias e as exigências do consumo. Logo, o trabalhador precisava, e ainda hoje precisa, estar em constante processo de aprendizado para continuar útil ao processo produtivo e sendo assim, não ser descartado como obsoleto e ultrapassado.

A mídia, nas mais variadas formas de visibilidade, também fomenta práticas educativas com intencional propósito. Neste sentido, não se concebe a existência de uma mídia isenta de pré-conceitos, de pré-intenções, de imparcialidades e de neutralidades. A mídia serve aos padrões modernos como um doutrinador trejeitado de entretenimento. A ausência de uma sala de aula com todo o aparato escolar não torna a mídia menos eficaz no processo de convencimento, de formação de opinião e de reprodução de práticas sociais.

Enfim, somos todos professores! Quer seja na escola, na religião, na família, no mundo do trabalho e na mídia (e, entre outras formas). Estamos todos ensinando e sendo ensinados, simultaneamente, instantaneamente e conjuntamente. Educação, então, é um processo inerente à existência/atividade humana. A própria vida se torna um processo educativa/pedagógico depositando aos seres vivos a capacidade de compreender, criticar, pensar, duvidar, negar, questionar e etc. Somos todos professores não porque somos importantes, mas sim porque isto é importante para nós.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 27 de Fevereiro de 2018]

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Do islamismo a fantasia da liberdade


“Povos livres, lembrai-vos desta máxima: A liberdade pode ser conquistada, mas nunca recuperada”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

O mundo moderno é marcado pelo terrorismo. Fato! Será?! E terrorismo de quem? Para com quem? E até que ponto está “guerra” é religiosa, ou todo pano religioso é apenas uma máscara politica para implementação de um globalitarismo (globalização com autoritarismo), conforme nomeia Milton Santos. Até que ponto as informações mediadas pela mídia (redundância necessária) são confiáveis e isentas de violência simbólica, como categoriza Pierre Bourdieu. Se estamos em guerra não é contra o Islamismo, ou pelo menos não deveria ser, pois o inimigo é outro, bem mais perto de nós.

Nos comovemos com o, suposto, recém atentado, dito, terrorista, em Paris (dia 13 de Novembro/2015), o que de fato deve gerar tal comoção. Contudo, estranhamente não nos comovemos com os 25 suicídios diários no Brasil, que totalizam mais de nove mil suicídios por ano (estimativa). E o fato de que o suicídio cresceu 30 % entre os jovens de 15 a 29 anos, também não nos comove (dados retirados da Revista ISTO É, de setembro/2013, escrito pela colunista Mônica Tarantino). Lembrando que se estes são os números oficiais, provavelmente o numero real deve ser muito maior, pois suicídio não é algo que socialmente e religiosamente tenha boa aceitação.

Não nos comove o número de mortos pelo terrorismo automobilístico causado por “acidentes” de trânsito, que em sua grande maioria são por pura imprudência e intencional irresponsabilidade humana. Segundo o Instituto Avante Brasil, em 2014, estima-se que houve mais de quarenta e oito mil mortos no trânsito. O que segundo o jurista Luiz Flavio Gomes, em termos absolutos, o Brasil ocupa o 4° lugar no ranking mundial (os dados estão expostos no blog/site JUSBRASIL). Tristemente, em solos tupiniquins matar usando como arma o carro, não é motivo de nossa comoção nacional, é uma normose cultural.

Não nos comove saber que no Nordeste, em 2012, mais de quatro milhões de animais, entre bovinos e caprinos, morreram por causa da seca extrema, segundo dados do IBGE (pesquisa Produção da Pecuária Municipal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). E sendo assim, não nos comove a história de Maria Aparecida que afirma ter como maior sonho uma cisterna e água na torneira (reportagem disponível no site G1, em 02 de junho de 2015). Infelizmente, perceber que só dos animais mortos pela seca, se não o fossem, poderíamos minimizar a fome de tantos grupos minoritários que vivem em situação de pauperismo nos rincões brasilianos, mas isto também não nos comove ao ponto de fazermos algo. Por tudo isto, reitero que o que me preocupa não é a comoção por Paris (França), mas sim a ausência de comoção pelos terrorismos brasileiros, cotidianos.

Nossas comoções passam essencialmente por duas vias: a primeira é a via do individualismo-coletivo, que se demostra favorável a intervenções e revoluções, desde que o problema em questão seja o “meu” problema. Nossas indignações não se tornam coletivas, a não ser se for congruente como o “meu” interesse. O Brasil não é um país solidário a causas coletivas, o que temos, de fato, são alguns movimentos que, temporalmente, se alinham as necessidades individuais de alguns, e por isto ganham volume. Por isto, não se vê com frequência um homossexual lutando pela causa heterossexual (ou vice versa), ou um homem defendendo a Lei Maria da Penha, ou ainda um homem defendendo a equiparação salarial da mulher no mercado de trabalho, ou um usuário de carro enfrentando o monopólio do transporte público.

A segunda via de nossas comoções é a via da supervalorização da cultura do Norte. Os autóctones, nativos do Terceiro Mundo (expressão não mais usual após o fim da Guerra Fria), de países em desenvolvimento (?) tendem a fixar mais os olhos nos acontecimentos europeus e estadunidenses, do que nas mazelas nacionais. O que acontece lá é mais importante do que aquilo que acontece pra cá. Isto, talvez, se explique (não justifique), pelo fato de nossa história de estratificação colonial, em que massacraram a cultura indígena local, relegando-a a anátema, e não poucas vezes associando esta cultura a inferioridades infernais. Outra prova disto são os atentados terroristas que aconteceram recentemente na África, que teve muito mais mortes, estupro e violência do que Paris, mas que não ganham destaque (ou comoção), pois afinal, não são do Norte.

Com relação ao suposto atentado de Paris (novembro/2015), há um ponto interessante (para não usar o termo “positivo”), pois muitos cristãos, especialmente os evangélicos, estavam fomentando a jihad gospel, associando a acolhida dos refugiados como uma estratégia islâmica de terrorismo global. O atentado em Paris provou o contrário, pois quase que imediatamente muitos países europeus cancelaram os acordos de acolhida e iniciaram silenciosamente, mas de forma brutal, um processo de deportação dos imigrantes. Ou seja, se, segundo o terrorismo gospel, os islâmicos queriam se infiltrar, isto não mais é possível (ao menos não como estava sendo praticado).

Ainda sobre o “suposto” atentado em Paris é preciso fazer uma conjectura animalesca de nossa humanização urbana capitalista, nada islâmica por sinal. Reafirmo, que o que houve em Paris foi um “suposto” atentado, pois em termos numéricos, o atentado foi inexpressivo (talvez o termo soe desapropriado e deselegante). O local do atentado foi no mínimo deslocado. Não atingiu nenhum local simbólico de Paris ou politico. Quem morreu foram apenas “pessoas”. Tudo isto é muito suspeito. Mais estranho é perceber que 30 minutos depois a Holanda já faz um pronunciamento ante-acolhida de refugiados, entre outros que se seguiram. Há quem diga que a própria Europa tenha simulado o atentado para fechar as portas para os refugiados de forma a, nem mesmo os órgão de direitos humanos, terem como que retalhar. O óbvio, agora, é não aceitar mais nenhum refugiado. Se este era o plano, deu certo. Deu tão certo, que nem a ONU se manifestou contrário ao fechamento das fronteiras.

Os supostos terroristas no atentado de Paris não eram refugiados, mas sim cidadão europeu. Contudo, a mídia não podia afirmar isto, não categoricamente, dai vinculou enfaticamente serem estes de origem árabe (uma designação extremante genérica e nada descritiva). O que a mídia quer demonstrar, entusiasticamente, é que um europeu não tem a gênesis de um terrorista, mas de contra partida, todos do mundo árabe tem no DNA um construto genético propicio a ser homem bomba. Isto é no mínimo dissimulação. O que ficou estereotipado no amistoso entre Turquia e Grécia, em Istambul, no dia 17 de Novembro/2015, quando o um minuto de silêncio em condolência aos franceses foi vaiado. Foi vaiado pela torcida turca, pois esta beatificação do Norte máscara os reais terrorismos que a própria França promove nos países do oriente médio. Então, a vaia foi um gritou que ecoou a incompatibilidade entre a aparência que a mídia mostra e a realidade terrorista que os países europeus e estadunidenses promovem nos países de oriente médio (na América Latina, países africanos, entre outros).

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 20 de Outubro de 2015]

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cegos, corcundas e lesionados


“sábio é o homem que chega a ter consciência de sua ignorância”.
Barão de Itararé (1895-1971)

A cada geração um novo perfil existencial se reformula, agregando valores do passado, superando limitações de outrora e recriando novas deformidades. Estar vivo é andar em metamorfose. No presente século três deficiências patológicas são imanentes à existência: ser cego, corcunda e lesionado. Cego por usar muito o celular, tablet, notebooks e PC’s em geral com uma proximidade errada e iluminação inadequada; está é uma geração de crianças com pouca visão. Corcunda por igualmente usar os aparelhos supra citados anteriormente com a postura errada, dilacerando paulatinamente a coluna e provocando uma inevitável encurvadura; está é uma geração de pessoas entortadas. Lesionado porque, a despeito da má utilização dos referidos equipamentos, fica-se (e fixa-se) por horas a fio digitando (catando letras) nos teclados virtuais; está é uma geração de gente com dores precoces.

Da tríade: “cegos, corcundas e lesionados” desencadeia-se uma evolução duvidosa sobre a nossa identidade social, ideológica e mitológica. Escuta-se esbravejar uma suposta falta de tempo que não coincide com a realidade do tempo empregado em redes sociais e bate-papos. A verdade, obscurecida, é que estamos mais carentes de afetos, por esta razão buscamos conversar ao máximo com o maior número de pessoas (o mais virtual possível) para que não haja tempo de nos a perceber no vazio que habita em nós fora das conexões da internet. Estamos correndo muito para cansarmos ao máximo e assim não termos tempo de contemplar a inutilidade de nossa jornada. Sonhamos alto para não ter que enfrentar a dura realidade que assola as noites silenciosas. Desta maneira, não seremos chamados de fracassados, mas sim de sonhadores (codinomes e pseudônimos da virtualidade dos nossos discursos).

Da tríade: “cegos, corcundas e lesionados” revive-se, tipologicamente, o corcunda de Nortre-Dame que reconhece sua submissão tola a um sistema frágil e corrupto. Reacende em nós a chama da liberdade, mesmo nunca tendo estado lá. Denuncia nossa “feiosidade” frente ao mundo de belezas estilizadas com películas de fotos e ajustes de fotoshop. Sendo assim, além de corcunda personifica um frankenstein que se esconde nas letras de um bate-papo qualquer, tampando as mais terríveis deformidades de caráter com medo de sermos visto como somos, sem sorrisos, sem efeitos, apenas sendo humano. Gente esta que aprendeu a submeter-se aos padrões mais ridículos por puro desdenho ao criador, gente que esquece que mesmo sendo criatura temos personalidade, temos identidade. Somos, então, tão diferentes que não mais nos vemos como iguais, desprezando o outro que, para além da virtualidade, também sucumbi a terrível realidade da vida.

Ser “cego, corcunda e lesionado” não é um estereótipo moderno, é o que nos define. Longe de ver a realidade por causa da sombra que esconde a verdade óbvia; encurvados frente a uma máquina que escraviza impetuosamente as mentes infantis de gente adulta por causa das facilidades inexplicáveis; lesionados no coração, na alma e no espírito, sendo a mão apenas um sinalizador que a dor é mais profunda por causa de nossa integração humanística. Sim, somos cegos, apesar de vermos vários rostos no facebook, semblantes que não significam nada. Sim, somos corcundas, apesar de discursarmos superioridade machista ou feminista, pouco importa, ambos perderam a noção de equidade. Sim, somos lesionados, apesar de sermos a geração do bem-estar fitnes, que faz pouse para o outro admirar ou repudiar. Tristemente, nos tornamos um retrato de tudo àquilo que evitamos histórica e socialmente.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 12 de Fevereiro de 2015]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Charles Chaplin e a exposição estética da pobreza


"Que minha dor seja motivo de alegria para alguém, mas que meu riso jamais seja motivo para a dor de alguém".
Charles Chaplin (1889-1977)

No ápice do cenário de entroncamento do Capitalismo com a Revolução Industrial, tendo em vista suas respectivas historicidades, que Charles Spencer Chaplin (1889-1977) nasce, cresce e se mostra ao mundo como um dos maiores ícones do cinema. Nascido em 16 de Abril de 1889 em Walworth, Londres, Inglaterra. Chaplin teve uma infância de pauperismo e privações diversas, margeando assim disfunções sociais, como endossa BAZIN (2006, p. 09, 10): “Charles Chaplin, abandonado pelo pai alcoólatra, viveu seus primeiros anos na angústia de ver a mãe ser levada para o asilo; depois, quando a internaram definitivamente, na aflição de ser perseguido pela polícia. Era um pequeno vagabundo de nove anos que se esgueirava pelos muros de Kensignton Road. (...) cuja mãe morreu louca, beirou a alienação... (...). De uns anos pra cá, vem se estudando mais seriamente o caso de crianças que cresceram no isolamento, na miséria moral, física ou material, e os especialistas descrevem o autismo como mecanismo de defesa... (...) Carlitos não é antissocial, mas associal, e que aspira a ingressar na sociedade (...). Embora não fosse o único cineasta a descrever a fome, foi o único a conhece-la...”.

Os filmes de Chaplin com certa frequência traziam alguma relação de desnude da pobreza, até porque o personagem Carlitos tipificava o clássico vagabundo. Contudo, Chaplin conseguia ir além de um estereótipo de naturalização da pauperização. Chaplin tateava uma reafirmação das características representativas da classe proletária para além da carência financeira, atributos estes que HOGGART (1973) afirmou tempos depois estar sendo desconstruído intencionalmente, ou seja, a classe proletária está ficando sem classe (identidade, representatividade, tipificação).

Chaplin vale-se da arte cinematográfica para demostrar que no campo da pobreza existem virtudes que os define no âmbito da cidadania (humanização). A exemplo tem-se a representação do personagem Carlitos em O Circo (1928) que faminto e com apenas uma fatia de pão nas mãos, ainda sim compartilha do alimento com uma garota igualmente faminta – demonstrando a fraternidade/irmandade como característica intrínseca nas classes desfavorecidas economicamente. Isto também fica notório Em Busca do Ouro (1925) quando Carlitos faz de sua bota a refeição principal, e com intencionalidade fraternal ele a compartilha.

Charles Chaplin se consagrou como ator, especialmente na figura de Carlitos (conhecido também por: Charlot, The Tramp, O Vagabundo[1] - personagem de inúmeros filmes de Chaplin). Entretanto, Chaplin também atuou como diretor, roteirista, produtor de trilhas sonoras musicais para seus próprios filmes. E por ter total controle sobre suas produções cinematográficas fora, então, possível transparecer seu estranhamento com a sociedade moderna através de uma tragicomicidade imanente à Chaplin (e ao seu cinema).

Chaplin usou o cinema como forma de dialogar com várias temáticas sociais da sua época (algumas destas ainda latentes, mesmo 100 anos depois do surgimento de Carlitos - 1914), a saber: luta de classe, preconceitos sociais, desigualdade social, exploração do trabalhador, desumanização das relações sociais e política. Como acrescenta LOURENÇO (2008, p. 91, 93, 96): “Em suas aventuras, Carlitos descortina as contradições da sociedade moderna, fundada sobre o modo de produção desigual em sua essência. Em síntese, ele é um homem simples, o vagabundo que luta contra as dificuldades quase insuperáveis e que desenvolve a paz e a ordem ao universo apenas pelas suas atitudes humanistas contra o esfacelamento do tecido social. (...) Apesar de possuir características típicas de um anti-heroi, ele está sempre lutando contra sua miserável realidade (...) a pobreza lhe é um infortúnio, não necessariamente uma vergonha. (...) Chaplin não criava um mundo burguês idealizado, seus cenários eram subúrbios, bares populares e guetos, que eram desprezados pela indústria do cinema”.

O cenário da vida cotidiana do “vagabundo” era o fio condutor dos filmes de Charles Chaplin, especialmente os protagonizados por Carlitos. Tal predileção pela narratividade da pobreza não era comum nos tempos de Chaplin, como destaca SKLAR (1975, p. 138): “Pouquíssimos diretores se interessaram por retratar a vida dos pobres ou foram capazes de faze-los; e posto que os cenários de Chaplin pareçam muitas vezes exóticos e estilizados, seus temas são invariavelmente essenciais: como sobreviver, como encontrar comida, abrigo, segurança, companheirismo, amor. Poder-se-á argumentar que os extremos dos seus finais sentimentais são compensações para os extremos do seu realismo social”.

A película Tempos Modernos (1936) é uma das principais obras de crítica ao taylorismo-fordismo (industrialização e mecanicismo produtivo) inerente àquela época. Neste filme, Chaplin começa a provocar reflexões acerca do homem e a sociedade, destacando forte ênfase sobre o processo de desumanização do Capitalismo industrial. Contudo, é válido demonstrar a forma cinematográfica (estética) que os personagens se apresentam na referida película, desnudando algumas especificidades tanto do “funcionário” quanto do “patrão” – desnude do sistema capitalista opressor. Como acrescenta ALVES (2005, p. 66, 67): “Suas (referindo-se a Carlitos) transgressões involuntárias, que são muitas no decorrer do filme, são uma forma inconsciente de denunciar a corrosão da autonomia individual pelo capitalismo moderno. Sua inadequação é quase instintiva, pois, por mais que queira, ele não pode se sbsumir sem resíduos sob seu papel na divisão alienada do trabalho. O que presenciamos é o choque trágico (e cômico) de um homem comum com a realidade estranhada – destaque do autor”.

As representações imagéticas de Tempos Modernos (1936) apresenta o proletariado como uma figura nada carismática/simpática imergidos num conflito social-econômico de proporções constrangedoras e opressoras. Provocando desta maneira debates sobre direitos humanos e desigualdade social a partir do processo produtivo contemporâneo. Talvez, por causa desta magnitude sociológica, Chaplin decidiu fazer em Tempos Modernos a última aparição de “O Vagabundo” nas telas. Ficando para as gerações posteriores um lampejo de denuncia social, como anos depois ele mesmo escreve (CHAPLIN, 1965, p. 403): “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Para além das representações de classe, ou denúncias sociais do pauperismo, tanto Chaplin como o próprio cinema se mostram como uma ponte possível entre o imaginário adormecido e o real imaginativo esperado pelas platéias. Desta sucessão de conflitos fantasmagóricos, muita das vezes imperceptíveis, que preconiza o cinema como ferramenta da psicanálise, ou vice-versa – desvelando rupturas para além do consciente visível.

A história do cinema se emaranha (margeia e enamora) com a história da psicanálise, isto se fundamenta a partir do marco principal em Freud, especificamente com a obra A Interpretação dos Sonhos em 1899. Sendo que deste a referida publicação os sonhos perderam sua simbologia divina e agregavam, então, a realização de um desejo infantil reprimido (conflitoso). E assim, Freud desnuda o que fora conhecido como inconsistente. A cinematografia personifica os sonhos (de gente acordada), torna visual o mal-estar estrutural da vida e engloba valores soterrados nos espectadores (sujeitos em processo de catástase).

É por meio da aproximação cinema e psicanálise que se torna possível interagir com o obscuro existencial reprimido com fins de uma apreciação artística (TELLES, 2004). Ato este que desvela as potências inventivas dos diretores e criadores de histórias (roteiros), bem como as personagens que tipificam as verdades mais profundas da alma dos inventores. Obviamente, Freud não se ocupou da nova arte (cinema), mesmo tendo conhecimento da relação estreita existente entre os aparelhos ópticos e o aparelho psíquico. Freud não escreveu nada sobre o cinema, seu contato com o cinema se deu pela primeira vez em 1909, nos Estados Unidos (RIVERA, 2008).

A produção cinematográfica de Chaplin demonstra na prática que o inconsciente age de forma decisória sobre o consciente. Carlitos (personagem) se tornou uma paródia poética da tragicomicidade da infância sofrida (desafortunada) de Charles Chaplin (autor). Ao que parece Chaplin nunca conseguiu se desassociar dos rastros mnêmicos[2] das mazelas/traumas sofridas na infância (inconsciente), e isto transparecia (consciente) em suas películas por meio da representação dos personagens, cenários e histórias (LOURENÇO, 2008).

Chaplin usou o cinema como palco para promover a sua própria experiência e possibilitou ao espectador a igual condição de fazer experiências a partir do cinema chapliniano. Estas possíveis experiências, tanto do autor quanto do espectador, só eram tangíveis, pois para Chaplin o cinema era uma forma de comunicação (discurso-representativo) de sua própria vida, e para a platéia as representações estéticas assistidas dialogavam com suas histórias cotidianas.

A experiência estética do cinema de Chaplin era capaz, mesmo num cinema mudo, de transportar da língua ao discurso (AGAMBEN, 2008) e fazer representar o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca, indo para além da vivência do que passa, acontece ou toca (LAROSSA, 2002). A experiência acontece na obra fílmica de Chaplin porque “...não tem a pretensão de transmitir um acontecimento, pura e simplesmente (como a informação o faz); integra-o á vida do narrador, para passa-lo aos ouvintes como experiência... (BENJAMIN, 1992, p. 38).

Por tudo que fora exposto, é válido reiterar que, cinema (especialmente o chapliniano no que tange a crítica ao pauperismo) e psicanálise são fluidos do mesmo mecanismo. Valendo-se, enão, da arte como forma de desnude da personalidade camuflada, como assevera RIVERA (2008, p. 09): “Entre a presença de imagens em sucessão e o escuro – o intervalo que o filme nos apresenta (ainda que não o percebamos) -, o cinema pode nos tranquilizar em um mundo homogêneo, ou lançar-nos na vertigem de um aleph. A arte, podemos dizer de uma forma geral – e, portanto, sempre um tanto grosseira -, desperta no homem o que há nele de mais agudo e essencial, trazendo à tona, numa brecha fulgurante, o que faz dele um sujeito. (...) à psicanálise interessa esse mesmo ponto agudo da constituição, da dor e da fruição do sujeito. A psicanalise nasce entrelaçada à arte...”

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 05 de Dezembro de 2014]



[1] Sobre o surgimento de “O Vagabundo”, Chaplin pondera: “...a caminho do guarda-roupa, pensei em usar umas calças bem largas, estilo balão, sapatos enormes, um casaquinho bem apertado e um chapéu-coco pequenino, além de uma bengalinha. Queria que tudo estivesse em contradição (...) Não tinha nenhuma ideia sobre a psicologia do personagem. Mas, no momento que assim me vesti, as roupas e a caracterização me fizeram compreender a espécie de pessoa que ele era. Comecei a conhecê-lo e, no momento em que entrei no palco de filmagem, ele já havia nascido. Estava totalmente definido” (CHAPLIN, 1965, p. 141, 142).
[2] “A memória é a capacidade de registrar, manter e evocar as experiências e os fatos já ocorridos (...) Tudo o que uma pessoa aprende em sua vida depende intimamente da capacidade de memorização (...) Alguns dos principais pesquisadores atuais em neurociências e comportamento atribuem papel central da memória na própria definição e na constituição do ser humano. (...) somos aquilo que recordamos (ou que, de um modo ou de outro, resolvemos esquecer)” (DALGALARRONDO, 2008, p. 137).


::Referências Bibliográficas::

AGAMBEN, Giorgio. Infância e História. Destruição da Experiência e Origem da História. Belo Horizonte: UFMG, 2008.
ALVES, Giovanni. A Batalha de Carlitos: Trabalho e Estranhamento em Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Revista ArtCultura. Uberlândia, v. 7, n. 10, p. 65-81, jan-jun. 2005.
BAZIN, André. Charlie Chaplin. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2006.
BENJAMIN, Walter. Sobre Arte, Técnica, Magia e Política. Lisboa: Relógio D’Água, 1992.
CHAPLIN, C. História da Minha Vida. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
HOGGART, Richard. As Utilizações Da Cultura – Aspectos da Vida Cultural da Classe trabalhadora. 1° Volume. Lisboa: Editorial Presença, 1973.
LARROSA, Jorge, Notas sobre a Experiência e o Saber de Experiência. Revista Brasileira de Educação. Campinas, nº 19, p. 20-28, jan./fev./mar./abr. 2002.
LOURENÇO, Júlio César. Os conflitos de Carlitos frente às Contradições da Sociedade Moderna. Revista Anagrama: Revista Cientifica Interdisciplinar da Graduação da USP, v. 2, n. 2, p. 90-106. 2008.
RIVERA, Tânia. Cinema, Imagem e Psicanálise. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2008.
SKLAR, Robert. História Social do Cinema Americano. São Paulo: Cultrix, 1975.
TELLES, Sérgio. O Psicanalista vai ao Cinema: Artigos e Ensaios sobre Psicanálise e Cinema. São Paulo: EdUFSCar, 2004.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Hoggart: a mídia e a formatação social

"Não nego a necessidade objetiva do estímulo material, mas sou contrário a utilizá-lo como alavanca impulsionadora fundamental. Porque então ela termina por impor sua própria força às relações entre os homens".
Ernesto Che Guevara (1928-1967)

Richard Hoggart (1918-2014) escreveu em 1957 o livro: “The Uses of Literacy: Aspects of Working-Class Life”. Que fora traduzido para o português em 1973 com o título: “As Utilizações da Cultura – aspectos da vida cultural da classe trabalhadora”. A referida obra apresenta limites no que tange aos referencias teórico-metodológicos, pois perscruta caminhos não sistematizados/teorizados, baseando-se no empirismo das percepções que tinham como pano de fundo a própria experiência de vida proletária do autor. Contudo, tais limitações não reduzem a utilidade/importância da obra, pois o mesmo se tornou um recorte histórico-cultural das mudanças que ocorreram na vida das pessoas da classe proletária inglesa, especificamente no pós-guerra, destacando o alcance/transformação que os meios de comunicação em massa produziram (ou reproduziram) nas periferias da Inglaterra.

Segundo Hoggart, os meios de comunicação de massa não é meramente um convite à fuga da realidade do proletário, é antes um constitutivo representativo da realidade das classes proletárias, dando ênfase para os padrões massificados no aspecto social, religioso, familiar, coletivo e empregatício. As mídias da referida época desnudavam o cotidiano dos bairros de periferias e seus desafios histórico-culturais, ora reafirmando paradigmas, ora desconstruindo-os de forma lenta, gradual e intencional, recriando novos padrões sociais conforme a necessidade (e interesse) do capital.

Hoggart afirma (1973, p. 29, 39) que: “A distinção entre as atitudes <antigas> e <novas>, embora não seja muito nítida, é suficientemente clara para se tornar útil. E quando falo de atitudes <antigas> não me refiro a uma vaga tradição pastoril, utilizada com o intuito de depreciação do presente, mas a algo com o intuito de depreciação do presente, mas a algo que realmente existe e pode ser claramente definido. (...) as aldeias eram abandonadas pela gente nova, e as cidades invadiam o campo em seu redor, construindo aglomerados habitacionais baratos e estritamente utilitários. (...) As mudanças processam-se sempre muito vagarosamente, e as pessoas não dão pelas contradições: acreditam e não acreditam simultaneamente”.

O livro denuncia a severidade da vida cotidiana do proletariado inglês e suas relações de consumo cultural. Conjunção esta que descortina a expressividade/representatividade das relações sociais na formação do sujeito proletário, sendo todo este cenário produzido e reproduzido nas interfaces midiáticas da época. Tendo, portanto, como assuntos primordiais aqueles que se referem à vida comum do trabalhador proletariado, distante dos movimentos intelectuais, literários e políticos. Entretanto, isto não quer dizer que tais temas “comuns” não tenham relevância histórico-cultural-social, principalmente no que se refere à construção da identidade desta classe.

Hoggart afirma (1973, p. 99, 100, 101, 106, 109) que: “Os membros do proletariado sentem a necessidade de formar um grupo, porque a vida é dura (...) A maior parte desses rapazes e dessas raparigas sabem que não têm quaisquer possibilidades de promoção ou de fazer carreira... As canções do proletariado falam de amor, de amigos, e de um verdadeiro lar; afirmam sempre que o dinheiro não é a coisa mais importante. (...) Essas pessoas não conseguem geralmente sair da própria classe ou ascender a outra superior; limitam-se a agitar-se em vão, sempre dentro dos mesmos limites, recolhendo as insignificâncias que os outros desprezam. (...) A linguagem e os modos de falar do proletariado são mais abruptos. (...) No nosso bairro, os suicídios eram considerados como acontecimentos não muito excepcionais...”

O autor perpassa sua análise relacionando a situação econômica do trabalhador e suas predileções/limitações de vida (canções, religiosidade, bairro, entretenimento, entre outros). A relação dinheiro, condição de vida e existência são entremanhadas de forma singular na vida do proletariado, compondo um modo representativo, construído a partir das ausências do capital. Não sendo esta uma situação denunciável, mas sim tolerável e aceitável nas classes proletárias – realidade comumente cabível nos discursos da mídia de massa e nas comunicações informais de bairro. Condicionar-se a uma situação de deformação e submeter-se aos ditames dos donos do capital não é uma opção, mas sim o único caminho de conciliar a vida na periferia.

Hoggart afirma (1973, p. 165, 169, 175, 179, 201) que: “Os indivíduos do proletariado, como toda a gente sabe, gostam de apostas e do jogo. (...) sabendo que não há esperanças de que a sua vida possa melhorar através de um esforço gradual; daí o desejo de riqueza caída do céu. (...) A maioria dos indivíduos das classes proletárias não alimentam a ambição de subir na escala social. (...) As extravagâncias dos adultos podem parecer insignificantes (...) são esses pequenos nadas que dão alegria e variedade à vida. (...) Todas as pessoas se vão divertir ao mesmo tempo, uma vez que os apitos das fábricas soam para acabar o trabalho quase todos à mesma hora. (...) As canções e o gosto pelo canto característicos das classes proletárias exemplificam muito bem tanto a continuação das velhas tradições, como a capacidade de adaptação e assimilação das novidades, que são integradas na tradição. (...) A vida lá fora, a vida da segunda-feira, é muito dura...”

Enfim, Hoggart denuncia a fragilidade dos padrões sociais que se endossam pela mídia de massa, ao mesmo tempo em que demonstra a representatividade destas relações na formação do sujeito trabalhador inglês. Descreve uma sociedade em que a mulher tem um papel definido na relação matrimonial, o marido exerce uma função essencial na relação de manutenção do lar, o bairro configura-se numa relação social-afetiva, a religião exerce uma funcionalidade ética na formação dos indivíduos e as canções representam um gangorrear dos sentimentos nostálgicos do proletariado. Por tudo isto, fica latente que os aspectos da vida cultural da classe trabalhadora são sui generis e que tais peculiaridades não são fruto do acaso histórico, mas foram construídas, arquitetadas e planejadas para uma cultura utilitarista tracejada de capitalismo.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 10 de Maio de 2014]


::Referências Bibliográficas::
HOGGART, Richard. As Utilizações Da Cultura – aspectos da vida cultural da classe trabalhadora. Lisboa: Editorial Presença, 1973.