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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Somos todos professores!


"A educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Somos todos professores! É óbvio que nem todos nós nos encontraremos nos palanques de uma sala de aula nos padrões convencionais e formais da educação, mas estamos todos nós inseridos na prática pedagógica do cotidiano, isto porque não é apenas a escola/universidade que ensina, mas sim toda e qualquer interação social intencional e movida de sentidos. Desta forma, há ao menos cinco instâncias educativas, ou, instâncias socializadoras, a saber: a escola, a religião, a família, o mundo do trabalho e a mídia.

A escola/universidade é o foco central das discussões pedagógicas, didáticas e educativas, pois esta representa, nuclearmente, a essência da prática educativa. Na escola, intenta-se “ensinar” os indivíduos para o viver em sociedade, ao menos, para a sociedade congênere da própria escola. Aplica-se, portanto, medidas coercitivas, educativas, punitivas, compensatórias, dialógicas, explicativas, teóricas e etc. A proposta final é “devolver” para a sociedade um individuo ajustável às expectativas sociais, eis aí a necessidade de diplomação como forma de diferenciação, distinção e identificação.

A religião também é um campo, perigosamente, fértil de padrões educativos, quer seja na representa exata de salas de aulas de catequeses e/ou discipulados, assim como na própria representa pública da missa/culto/celebração/reunião. Neste contexto, intenta-se ensinar valores morais que perpassam a vida dos fieis/adeptos amoldando-os aos padrões religiosos. Uma simples predicação religiosa traz consigo elementos educativos: persuasão, convencimento, conhecimento e sociabilidade. Há de se destacar que no Brasil, nos primeiros anos, a religião e educação escolar andaram de mãos dadas, o que produziu mudanças eternas em ambas as instituições.

A família é um dos mais relevantes centros educacionais desde os tempos antigos, pois é neste local intangível que as pessoas tendem a passar a maior parte de suas vidas, especialmente nos primeiros anos de vida, consequentemente, é evidente que este local vai ser impregnado de práticas educativas. Na família os indivíduos aprendem os significados de conceitos subjetivos e abstratos como: amor, ódio, esperança, desilusão, saudade, maldade, carinho, afeto, confiança, fraternidade, desamparo, entre outros possíveis distintivos que mesmo nunca sendo ensinado nos padrões formais hão de ser aprendidos e incorporados na vida.

O mundo do trabalho também ensina, quer seja no conhecimento tácito das práticas experienciáveis da vivência ou pela própria educação orientada para o trabalho. O trabalho como concebemos modernamente é decorrência do que se tornou o trabalho a partir da Revolução Industrial, isto é, uma constate adequação junto à evolução das máquinas/tecnologias e as exigências do consumo. Logo, o trabalhador precisava, e ainda hoje precisa, estar em constante processo de aprendizado para continuar útil ao processo produtivo e sendo assim, não ser descartado como obsoleto e ultrapassado.

A mídia, nas mais variadas formas de visibilidade, também fomenta práticas educativas com intencional propósito. Neste sentido, não se concebe a existência de uma mídia isenta de pré-conceitos, de pré-intenções, de imparcialidades e de neutralidades. A mídia serve aos padrões modernos como um doutrinador trejeitado de entretenimento. A ausência de uma sala de aula com todo o aparato escolar não torna a mídia menos eficaz no processo de convencimento, de formação de opinião e de reprodução de práticas sociais.

Enfim, somos todos professores! Quer seja na escola, na religião, na família, no mundo do trabalho e na mídia (e, entre outras formas). Estamos todos ensinando e sendo ensinados, simultaneamente, instantaneamente e conjuntamente. Educação, então, é um processo inerente à existência/atividade humana. A própria vida se torna um processo educativa/pedagógico depositando aos seres vivos a capacidade de compreender, criticar, pensar, duvidar, negar, questionar e etc. Somos todos professores não porque somos importantes, mas sim porque isto é importante para nós.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 27 de Fevereiro de 2018]

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Aparecida de Goiânia: possibilidades de resistência


"O capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento".
Zygmunt Bauman (1925-2017)

A cidade de Aparecida de Goiânia teve seu início oficial em 1922, a partir da doação de terras, por parte de fazendeiros locais, para a construção da Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Ali se formou um vilarejo, que nas décadas de 1950 e 1960 foi alvo de uma grande explosão demográfica ocasionada pela Marcha para o Oeste, pela nova capital do Estado de Goiás, pela construção de Brasília e pela construção da BR-153. Entretanto, somente em 14 de Novembro de 1963 a cidade de Aparecida de Goiânia emancipou-se, pela Lei Estadual nº 4.927, de 14 de novembro de 1963.

A cidade de Aparecida de Goiânia, desde sua formação em 1922, vem sofrendo, gradualmente, uma série de mudanças sociais, ora provocada pela migração territorial desmedida, ora por um Plano Diretor ineficaz, ora pela especulação imobiliária desordenada. Contudo, apesar da suposta expansão territorial de Aparecida de Goiânia, é oportuno asseverar que a cidade convive, ainda que por meio de uma visão romântica, uma perspectiva de saudosismo subjetivo permeado por manifestações da cultura popular regional, especialmente no quesito musical.

É válido considerar que tais percepções se inserem no contexto histórico-social da cidade de Aparecida de Goiânia, conforme se observa na letra da canção “lugarzinho bom de morar”, de autoria de Yeda Célia Paes Landim: “Lugarzinho bom de morar | Cidade de Aparecida | Como é bom apreciar | Lá na Praça da Matriz | Ainda pode-se sentar | Para um bate-papo amigo | Ou até negociar | Seus belos tempos passados | Gosto muito de lembrar | Carros de bois pela ruas | Banda de música a tocar | As famílias reunidas | Pros festejos do lugar | Aparecida meu orgulho | Quero te ver prosperar | Mais não deixe o progresso | Seus bons valores mudar | [...]” (Jornal Diário de Aparecida, p. 2, n° 1262, de 11 de Dezembro de 2015).

Para Hoggart (1973) a música ocupa lugar de destaque no desvelar da cultura popular, e sendo assim, torna-se oportuno analisar as representações que a canção acima evidencia, desvelando coexistir, simultaneamente, na história aparecidense, dois possíveis paradigmas socioculturais: primeiro, demonstra que a população gangorreia, por meio de um saudosismo desacerbado, entre a realidade objetiva e as expectativas subjetivas. Sendo que para Ribeiro (1985) isto teria uma origem histórica, pois os ditos Povos-Novos se inspiram em “miragens de paraísos perdidos” (p. 75), um resgate mítico de um suposto tempo melhor do que o tempo presente, esta miragem pode maquiar a realidade histórico-social e, então, favorecer o estado de naturalização da pobreza no município.

Tais afirmativas são plausível de comprovação por meio da percepção romântica e da expectativa subjetiva registrada na narrativa do ex-prefeito da cidade, como se segue: “Aparecida de Goiânia, ainda por muito tempo, será a alternativa primeira para onde a maior parte do povo se deslocará, tornando-se no futuro o maior aglomerado urbano de Goiás, devendo proximamente superar Goiânia em termos de população porque dispõe de espaço físico maior que a capital e seu crescimento demográfico é mais contínuo” (MELO, 2002, p. 58).

No relato acima, a semelhança da canção de Yeda, demonstra uma expectativa de futuro subjetiva resgatando uma perspectiva de passado romanceada, sem levar em consideração a historicidade e a realidade, tal fato distancia os possíveis diálogos para compreensão da realidade.

O segundo aspecto que a citada canção evidencia é a naturalidade com que o processo denominado de progresso é entendido de forma passiva, como um caminho inevitável de desconstrução dos valores regionais. Melo (2002) também caminha pela mesma via e afirma: “[...] As deficiências de uma cidade que cresce de uma hora para outra são naturais [...]” (p. 58). Entretanto, é exatamente esta concepção que favorece o percurso de naturalização do estado de pobreza. De contrapartida, na percepção de Simone (2014), ao olhar para o passado de Aparecida, ela tem a impressão que o progresso não precisava ter sido tão destruidor da arquitetura, cultura e história local.

A canção de Yeda desvela os dois paradigmas sociais dispostos anteriormente, mas também evoca outro fator importante para a compreensão da historicidade da população aparecidense, que é o contexto rural inserido na constituição cultural da cidade. Na canção de Yeda há menção desta ruralidade, pressuposto também defendido por Simone (2014) e Moraes (2003), sendo que para esta última autora, até meados de 1930 a urbanização de Goiás foi sustentada por uma ocupação rural, e acrescenta: “as cidades goianas retratam características rurais na sua estrutura urbana, na sua arquitetura e nas características de seu povo” (MORAES, 2003, p. 27).

A música de raiz, entendendo ser este gênero musical uma das formas de maior expressividade da cultura rural, então, pode conseguir carregar o germe da resistência, pois como consideram Markman (2007) e Tinhorão (2001), a dinâmica deste gênero musical não segue a lógica evolutiva da cultura das elites que são, majoritariamente, urbanas e consumistas. Este dualismo do rural-urbano presente na trajetória histórica de Aparecida de Goiânia consegue reacender na modernidade aparecidense, resguardadas as devidas proporções, os conflitos e lutas socioculturais do campo-cidade, trazendo implicações diretas nas relações embrionárias da pobreza urbana. 

Enfim, o regionalismo rural goiano pode ser um elo de resistência, ainda que adormecido e silencioso, nas entranhas de Aparecida de Goiânia. Contudo, com o alvorecer dos anos, mais distante das heranças rurais, os aparecidenses vão sendo achacados nos moldes da urbanidade capitalista.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 02 de Março de 2016]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
HOGGART, Richard. As Utilizações Da Cultura – aspectos da vida cultural da classe trabalhadora. 1° Volume. Lisboa: Editorial Presença, 1973.
MARKMAN, Rejane. Música e simbolização. São Paulo: Annablume, 2007.
MELO, Freud de. Aparecida de Goiânia: do Zero ao Infinito. Goiânia: Asa Editora, 2002.
MORAES, Lucia Maria. A Segregação Planejada: Goiânia, Brasília e Palmas. Goiânia: Editora da UCG, 2003.
RIBEIRO, Darcy. Os Brasileiros. Livro I – Teoria do Brasil. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
SIMONE, Nilda. Um Olhar sobre Aparecida: História e Cultura. Goiânia: Kelps, 2014.
TINHORÃO, José Ramos. Cultura popular: temas e questões. São Paulo: Editora 34, 2001.

sábado, 27 de agosto de 2016

Diálogos intermitentes


“Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça”.
Charles Chaplin (1889-1997)

A sensação de rapidez do mundo moderno faz-nos tornar obsoletos antes do tempo. A certeza de estarmos ultrapassados para esta geração não é apenas uma sensação esporádica ou especulativa, é uma afirmativa incontestável. Entretanto, permanecemos úteis a um sistema pugilista de competitividades em que se faz necessário ter perdedores para reafirmar a frágil grandeza dos atuais campeões. Tudo isto é parte intencional de estruturas simbólicas fortemente enrijecidas, que como considera Pierre Bourdieu, estratégias de jogo com resultados viciados, previsíveis e categorizantes. Neste sentido, é preciso treinar os perdedores para lutar para perder e assim reafirmar padrões midiáticos de hegemonias caritativas de sucesso e enriquecimento.

As fôrmas mudaram de tamanho inesperadamente e fez com que muitos não mais coubessem nos padrões modeladores de outrora. O mercado formal com sua seguridade não mais permanece sustentável numa sociedade docilmente indurável, ou como propõem Zygmunt Bauman, numa sociedade liquida. Os museus estáticos com obras de artes que recompõem a historicidade perdem lugar para a fugacidade de trinta segundos televisivos de uma propaganda qualquer. Não mais toleramos o preto no branco, precisamos de muitas cores, tantas que se torne impossível contar, tudo para nos perdermos numa multidão de informações ahistóricas que não conseguem formar, mas apenas aprisionar nossas percepções da vida coletiva. É assim que se adestra uma geração para viver para o trabalho.

O discurso uníssono comprova nossa incapacidade crítica de encontra respostas fora da cartilha dos senhores do feudo moderno. Por estes tempos tudo parece tão concordável e absolutista, como diria Milton Santos, estes são tempos de globalitarismos, de discurso único que fomenta uma consciência universal. Parece que tudo está posto: aquecimento global, terrorismo islâmico, globalização, supremacia estadunidense, corrupção tupiniquim, eleições eletrônicas, jornalismo imparcial e empresas com cases de sucesso. Por este viés as obviedades se dão como ditaduras sofistas em um mundo carente de convicções e cosmovisões.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 27 de Agosto de 2016]

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O esquecimento, a negação do passado e o silêncio


"podemos dizer que hoje, em nossa experiência como humanos, o passado não conta muito, pois não oferece fundamentos seguros para uma perspectiva de vida".
Zygmunt Bauman (1925- )

O esquecimento, a negação do passado e o silêncio são características do tempo presente, e sendo assim tornam-se produtora de cultura. É preciso que parta do pressuposto que a “memória não se reduz ao ato de recordar” (DELGADO, 2003, p. 17), e sendo assim se dá, essencialmente, na relação com o esquecimento e a negação do passado. Logo, analisar o esquecimento e o abandono do passado se torna fundamental no processo de reconstrução da memória. Então, se para Ricoeur (2007), “lembrar-se é, em grande parte, não esquecer” (p. 451), o inverso também se mostra funcional, ou seja, esquecer é, em grande parte, não se lembrar e, nesse caso, daquilo de que não se quer lembrar.

Segundo Ricoeur (2007) “o passado vivenciado é indestrutível” (p. 453), ou seja, permanece enquanto registro mnêmico, ainda que de forma inconsciente. Lombardi (2011) confirma tal ideia e acrescenta: “ao mesmo tempo em que a cultura é feita de memória, esta contraditoriamente também implica no esquecimento” (p. 77). Para o autor, a memória é “a possibilidade e capacidade de dispor dos conhecimentos passados” (Idem, p. 86). Sendo assim, o esquecimento e a memória são mecanismos capazes de conservar, reviver e restabelecer as atuais trajetórias histórico-sociais, pressupostos partilhados originariamente nos escritos de Ricoeur (2007), segundo os quais o esquecimento está intimamente relacionado à memória.

Na perspectiva de Jameson (2000) há uma crise de historicidade que é capaz de desvelar um diagnóstico cultural de esquizofrenia social. Para tanto, o autor afirma que “somos incapazes de unificar o passado, o presente e o futuro de nossa própria experiência biográfica” (p. 53). Para esse autor, o resultado estético dessa ruptura de temporalidade é o isolamento, é o fortalecimento do presente, numa espécie de materialidade das percepções e a perda da realidade, sendo que tudo se dá numa intensidade “alucinógena ou intoxicante” (Idem, p. 54).

Segundo Bauman (2011), a sociedade atual só consegue viver uma parte da história e “não se deixa integrar facilmente numa totalidade” (p. 97). Essa sensação de desapego ao passado e de virtualidade do futuro aponta para uma realidade do mundo do capitalismo emergido da lógica do consumismo, onde o imediatismo, a flexibilidade e a satisfação momentânea são discursos assimilados com naturalidade. Sendo assim, Bauman (2008) afirma que as âncoras estão flutuando.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 15 de Maio de 2016]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. História oral e narrativa: tempo, memória e identidades. Revista História Oral - Associação Brasileira de História Oral, n. 6, pp. 9-25, jul. 2003.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.
JAMESON, Frederick. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BAUMAN, Zygmunt. Vida em fragmentos: sobre ética pós-moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
LOMBARDI, José Claudinei [org]. História, memória e educação. Campinas: Alínea, 2011.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Jovens pobres brasileiros – revoltosos docilizados


“O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”.
Michel Foucault (1926-1984) 

Segundo Ribeiro (1985, p. 75) o povo brasileiro, como parte dos Povos-Novos, apresenta em sua constituição de formação cultural uma lacuna histórica, “a ausência de um segmento social intermediário e autônomo com o qual pudessem aliar-se na luta pela reordenação da sociedade”. A intermediação que se fazia necessário, segundo o autor, seria entre o estado de escravidão e à condição de trabalhadores livres. Portanto, segundo o autor, se desenvolveu a continuidade de “uma conduta passiva” e “um condicionamento ao regime servil”. Sendo que estas características permanecem pigmentando a história de vida do povo brasileiro, sendo especialmente visível entre as classes populares. Sendo válido considerar a observação de Burawoy (2010, p. 77), que baseado nos estudos de Bourdieu, afirma que: “a submissão ao capitalismo é profunda e inconsciente”. Este processo de passividade endossa o estado de naturalização da pobreza.

A conduta passiva e o condicionamento do regime servil (RIBEIRO, 1985, p. 75) se desvelam na vivência dos jovens pobres de periferias sob o disfarce de outras categorias, mas com similitudes ideológicas percebíveis, a saber: primeiro, a noção de protagonismo juvenil (DUARTE, 2012) que encarna a conduta passiva, transferindo toda culpa do sucesso ou fracasso para as histórias de vidas dos jovens, evitando assim qualquer possibilidade de rebeldia contra os agentes opressores, confirmando, então, o condicionamento ao regime servil, ou seja, os jovens pobres de periferias são docilizados (RIZZINI, 1997).

A segunda similitude parte da gestão filantrópica da pobreza, denunciada por Telles (2001). Sendo assim, os jovens pobres admitem passivamente o estado de naturalização da pobreza em suas histórias de vidas como um processo inevitável, culminando na intermediação social de Instituições do Terceiro Setor. Ao mesmo tempo em que as Instituições Sociais confirmam a passividade de ser jovem pobre, favorece o regime servil, pois para ser beneficiado por qualquer intervenção social é requerido dos jovens a obediência às diretrizes institucionais que, invariavelmente, ocupam territórios privados.

Os jovens pobres das periferias brasileiras desfrutam de uma historicidade que anteveem as suas próprias histórias de vidas e, então, remetem a uma história do Brasil. Sendo assim torna-se perceptível que o movimento de colonização ainda é constante e parece ter premunições de permanência histórico-social. Sendo que na atualidade o “globalitarismo” proposto por Santos (2001) ocupa-se de dar continuidade neste processo de colonização, condicionamento, exploração, dominação e naturalização. O resultado imediato é a negação de suas próprias histórias locais e a identificação com a história do opressor. O escape mnêmico que é dado se categoriza como esquecimento.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 24 de Março de 2016]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
RIBEIRO, Darcy. Os Brasileiros. Livro I – Teoria do Brasil. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
BURAWOY, Michael. O marxismo encontra Bourdieu. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2010.
DUARTE, Aldimar Jacinto. Jovens Urbanos da Periferia de Goiânia: Espaços Formativos e Mediações Escolares. 2012. 216 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Goiás, 2012.
RIZZINI, Irene. O Século Perdido: Raízes Históricas das Políticas Públicas para a Infância no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Universitária Santa Ursula, 1997.
TELLES, Vera da Silva. Pobreza e Cidadania. São Paulo: USP, 2001.
SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do Pensamento único à Consciência Universal. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Urgentes, mais do que importantes


"O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você”.
Mario Quintana (1906-1994) 

Da dicotomia entre urgente e importante muito já se foi debatido nos celeiros acadêmicos, especialmente do campo da administração e ciências afins. A definição é por demais simples: urgente se refere a tudo aquilo que precisa ser feito imediatamente; importante se refere a tudo aquilo que é estrutural. É obvio que o importante é mais “importante” que o urgente, mas estranhamente, na prática do cotidiano dedicamos mais tempos às emergências do que para as construções. Isto não é novidade. Entretanto, o que deveria nos incomodar não é a distinção dos termos, ou muito menos a certeza axiomática de que o importante precisa ser cultivado. O que realmente deveria incomodar é a não compreensão do porque na sociedade do século XXI somos tão facilmente seduzidos pelo urgente, mesmo quando não é de fato urgente.

O urgente deveria ser aquelas situações esporádicas que por estarmos tão atentos ao que realmente é importante, então, se mostrariam no horizonte como uma possibilidade, se houver tempo, pois afinal, estamos dedicando tempo ao que é importante. Entretanto, esta não é a realidade. Somos uma geração que se esconde por detrás da máscara do “sem tempo”, uma boa desculpa para gente que vive correndo do tempo. Dizemos estar sempre atrasados, mesmo quando não temos para onde irmos. Andamos depressa, mesmo quando há tempo para ir devagar. Esquivamos nossa intelectualidade no “estou cansado” com que num sussurro de desordem emocional e social que estamos emaranhados. Nosso corpo se desfalece na cama, não porque fizemos o que deveria termos feito ao final do dia, mas porque fizemos muito, mesmo sem saber termos tido progresso. Enfim, nos acostumamos com a sintonia e afinação do “urgente”, gostamos de estar lá, deleitamos em não termos tempo de reconhecer que não estamos vivendo o que é importante.

O urgente tem o dom de corroer nossa sanidade, dai nos põem numa roda gigante de intermináveis assuntos a serem resolvidos, que ao fim da lista já se pode ver na página seguinte outra lista a recomeçar. Podemos correr o dia todo, no outro dia a coisas estão lá outra vez para serem resolvidas. O urgente é como um capim em dias chuvosos, que se arranca dia após dia e ao olhar pra traz percebe-se que já nasceram outra vez. O urgente é interminável. Insuportável. Mas... há de se ter algo de sedutor no urgente, pois do contrário não viveríamos nossas trajetórias a enamorar com tal desvirtude. Talvez o urgente nos fascine com sua não rotina, mesmo que o amanhã seja igual. Quem sabe o charme do urgente seja a sensação de estarmos ocupados, mesmo que não produzindo nada. Quiçá o urgente nos embebede com sua objetividade, mesmo que ao fim não se tenha objetivos. O estado de urgente não dá lá muito tempo para se questionar estas coisas, pois não há tempo, se está sempre cansado, há muitas outras coisas para se fazer. O urgente é o câncer que nos define na sociedade moderna, é a mascara ideal para pessoas que precisam reafirmar suas convicções mais duvidosas, é uma selfie de nossa alma.

O importante fica lá no cantinho, a espera de um olhar para se desvelar como um caminho possível. O importante não é orgulhoso, não gosta de ficar se expondo todos os dias, não é dado a frases de efeito ou a encantos de gente que virou mercadoria. O importante é sempre o oposto do urgente. Jamais se consegue fazer algo de importante com urgência, se precisa de urgência, provavelmente não deve ser tão importante. O importante não precisa ficar correndo para parecer que se têm muitos lugares pra se chegar, como se nossas vidas se resumissem a destinos. O importante não se esmorece com o cansaço, pois sabe que é preciso descansar para se fazer o que é importante. O importante não é um estágio de sempre ocupado, pois o importante não se acumula. O importante não preocupa em acabar com listas de afazeres, pois só há uma coisa a se fazer, o importante.

Tristemente, somos uma sociedade do urgente, pois este se revela como uma patologia de nossas descontinuidades sociais, emocionais, afetivas, históricas, administrativas e religiosas – somos urgentes. O urgente nos faz sentir úteis, nos faz parecer estar inserido no movimento. Contudo, o urgente é uma dissimulação de nossas fraquezas que se fortalecem a cada ocorrência de emergência. O urgente nos faz sentir competentes a cada situação resolvida, nos faz acreditar que as coisas se resolvem rapidamente. Contudo, apesar de nosso imediatismo moderno, temos problemas históricos, estruturais. Então, a razão do urgente ser mais atrativo que o importante é relativamente simples: perdemos a importância.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 27 de Fevereiro de 2016]

sábado, 30 de janeiro de 2016

Entre fluidez, liquidez e estupidez


“Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam”.
Martin Luther King Jr (1929-1968)

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim num elevador. Preferimos olhar uma tela com sorrisos e selfies ensaiadas, do que olhar para o lado e ver semblantes que espelham nossas vidas modernas. Preferimos enviar uma imagem com “bom dia” para grupos virtuais, do que saudar com um “bom dia” o desconhecido vizinho junto ao elevador. Tristemente, perdemos a habilidade de conversar, hoje, apenas sabemos teclar. Neste mundo com tanta fluidez e liquidez descobrimo-nos na estupidez.

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim no carro. Quando as luzes vermelhas do sinaleiro ficam acesas, como que numa visível metáfora de que é tempo de parar, preferimos acelerar nossas percepções e mais uma vez sermos abduzidos para aquelas coisas já ditas e para as mefistofélicas correntes de solidariedade de gente que não mais sabe olhar para fora do vidro de um carro com ar condicionado. Tristemente, perdemos a habilidade de perder tempo, hoje, apenas queremos ganhar tempo. Neste mundo com tanta fluidez e liquidez descobrimo-nos na estupidez.

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim num restaurante. Comer não mais é um momento prazeroso de deleites e sensações coletivas, como tenta resgatar o movimento slow food. Comer se tornou apenas um ato selvagem de encher a barriga para continuar a trabalhar. Nesta insanidade compartilhada, os seres místicos das macumbas e das oferendas à Iemanjá acabam sendo os mais coerentes. Tristemente, perdemos a sensibilidade do paladar e, hoje, apenas nos tornamos mutantes com habilidades touch screen. Neste mundo com tanta fluidez e liquidez descobrimo-nos na estupidez.

Ligue o celular, conecte-se, veja o “zap zap”... é assim na igreja, em casa, numa festa, na fazenda, no amor, na família, nas brigas, nas paixões, nas noites, na cama, no banheiro... enfim, não somos o que teatralizamos todos os dias para nós mesmos, somos apenas aquilo que fazemos todos os dias com os outros. Quer saber quem você é? Desligue o celular e “conheça-te a ti mesmo” (aforismo grego). Há vida longe do “zap zap”, há vida para além das conexões virtuais, há vida após o celular. Então, fuja da fluidez, ignore a liquidez (numa perspectiva de Zygmunt Bauman) e verás a estupidez.

Ps.: Por isto, quando eu estiver off-line, não ligue, apenas espere, retorno quando der, se realmente precisar. Por isto, quando eu não comentar algo no grupo do “zap zap”, não desespere, não estou chateado com alguém, apenas estou olhando para o lado, contemplando a luz vermelha. Por isto, quando eu ficar em silêncio, não tente entender o que estou pensando, pois provavelmente não estarei pensado, apenas desligando-me, saboreando uma boa galinhada com pequi. Por isto, aproveite esta mensagem e desligue seu celular um pouco, fale um bom dia no elevador, e principalmente, escute o bom dia de outros. Enfim, se eu não responder, é porque estou procurando as perguntas, e pra isto preciso deligar um pouco o meu celular.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 30 de Janeiro de 2016]