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domingo, 9 de março de 2025

Só mantenha a direção!

"Velocidade é irrelevante se você estiver indo na direção errada." – Stephen Covey (1932-2012)


A jornada acadêmica está tomada por um frisson de urgência. Alunos querem diplomas antes de amadurecerem ideias, professores querem publicar antes de consolidarem saberes, universidades querem produtividade antes de formarem pensadores. Corre-se. E corre-se muito. Mas corre-se para onde?

A pressa, vendida como eficiência, gera um paradoxo: quem avança sem rumo não progride, apenas se desgasta. A academia, espaço por excelência do aprofundamento e da construção do conhecimento, tem sido reduzida a uma pista de corrida onde o único critério de sucesso é a chegada – não importa o percurso, nem a consistência do que foi aprendido. No entanto, como já asseverou Ortega y Gasset, "a rapidez que não se detém para refletir é a mesma que atira o homem no abismo."

O problema não está em querer chegar longe, mas em querer chegar rápido sem saber onde se quer estar. A ciência não se faz com pressa, mas com precisão. A compreensão profunda de um tema não se dá em velocidade 5x, como em vídeos didáticos acelerados. O pensamento precisa de maturação, de revisões, de dúvidas. A ilusão da velocidade acadêmica nos faz confundir informação com conhecimento, acúmulo de créditos com sabedoria, e produção em massa com contribuição intelectual.

O estudante que se preocupa apenas em terminar rápido raramente constrói algo sólido. O pesquisador que apenas multiplica publicações sem refletir sobre sua relevância dificilmente transforma o campo de estudo. A universidade que apenas foca em números e rankings pode até produzir especialistas, mas dificilmente formará intelectuais.

Direção é melhor que velocidade. Saber para onde se vai é mais importante do que chegar rápido. Aquele que mantém o rumo, mesmo que avance a passos curtos, chegará a um destino mais consistente do que aquele que apenas se apressa sem clareza de propósito.

Portanto, antes de acelerar, olhe o mapa. Antes de correr, defina a rota. Mais vale um caminho percorrido com consciência do que uma corrida desesperada sem destino.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra
[escrito em 05 de Março de 2025]

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Somos todos professores!


"A educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Somos todos professores! É óbvio que nem todos nós nos encontraremos nos palanques de uma sala de aula nos padrões convencionais e formais da educação, mas estamos todos nós inseridos na prática pedagógica do cotidiano, isto porque não é apenas a escola/universidade que ensina, mas sim toda e qualquer interação social intencional e movida de sentidos. Desta forma, há ao menos cinco instâncias educativas, ou, instâncias socializadoras, a saber: a escola, a religião, a família, o mundo do trabalho e a mídia.

A escola/universidade é o foco central das discussões pedagógicas, didáticas e educativas, pois esta representa, nuclearmente, a essência da prática educativa. Na escola, intenta-se “ensinar” os indivíduos para o viver em sociedade, ao menos, para a sociedade congênere da própria escola. Aplica-se, portanto, medidas coercitivas, educativas, punitivas, compensatórias, dialógicas, explicativas, teóricas e etc. A proposta final é “devolver” para a sociedade um individuo ajustável às expectativas sociais, eis aí a necessidade de diplomação como forma de diferenciação, distinção e identificação.

A religião também é um campo, perigosamente, fértil de padrões educativos, quer seja na representa exata de salas de aulas de catequeses e/ou discipulados, assim como na própria representa pública da missa/culto/celebração/reunião. Neste contexto, intenta-se ensinar valores morais que perpassam a vida dos fieis/adeptos amoldando-os aos padrões religiosos. Uma simples predicação religiosa traz consigo elementos educativos: persuasão, convencimento, conhecimento e sociabilidade. Há de se destacar que no Brasil, nos primeiros anos, a religião e educação escolar andaram de mãos dadas, o que produziu mudanças eternas em ambas as instituições.

A família é um dos mais relevantes centros educacionais desde os tempos antigos, pois é neste local intangível que as pessoas tendem a passar a maior parte de suas vidas, especialmente nos primeiros anos de vida, consequentemente, é evidente que este local vai ser impregnado de práticas educativas. Na família os indivíduos aprendem os significados de conceitos subjetivos e abstratos como: amor, ódio, esperança, desilusão, saudade, maldade, carinho, afeto, confiança, fraternidade, desamparo, entre outros possíveis distintivos que mesmo nunca sendo ensinado nos padrões formais hão de ser aprendidos e incorporados na vida.

O mundo do trabalho também ensina, quer seja no conhecimento tácito das práticas experienciáveis da vivência ou pela própria educação orientada para o trabalho. O trabalho como concebemos modernamente é decorrência do que se tornou o trabalho a partir da Revolução Industrial, isto é, uma constate adequação junto à evolução das máquinas/tecnologias e as exigências do consumo. Logo, o trabalhador precisava, e ainda hoje precisa, estar em constante processo de aprendizado para continuar útil ao processo produtivo e sendo assim, não ser descartado como obsoleto e ultrapassado.

A mídia, nas mais variadas formas de visibilidade, também fomenta práticas educativas com intencional propósito. Neste sentido, não se concebe a existência de uma mídia isenta de pré-conceitos, de pré-intenções, de imparcialidades e de neutralidades. A mídia serve aos padrões modernos como um doutrinador trejeitado de entretenimento. A ausência de uma sala de aula com todo o aparato escolar não torna a mídia menos eficaz no processo de convencimento, de formação de opinião e de reprodução de práticas sociais.

Enfim, somos todos professores! Quer seja na escola, na religião, na família, no mundo do trabalho e na mídia (e, entre outras formas). Estamos todos ensinando e sendo ensinados, simultaneamente, instantaneamente e conjuntamente. Educação, então, é um processo inerente à existência/atividade humana. A própria vida se torna um processo educativa/pedagógico depositando aos seres vivos a capacidade de compreender, criticar, pensar, duvidar, negar, questionar e etc. Somos todos professores não porque somos importantes, mas sim porque isto é importante para nós.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 27 de Fevereiro de 2018]

terça-feira, 18 de julho de 2017

Da distância entre a tristeza e a decepção


"(...) A vida é triste, o mundo é louco! (...) A vida continua, indiferente!”
Mario Quintana (1906-1994)

A tristeza produz lágrimas, que por sua vez desvela um coração enfraquecido, despido e desnutrido de esperança. Estranhamente, a tristeza faz parte da vida, desde o começo até os mais sublimes finais felizes, ainda sim, a tristeza esta e estará lá. Tristeza é um estágio transitório, ainda que com sintomas permanentes. Portanto, ninguém consegue ser triste por toda uma vida, assim como, igualmente, ninguém consegue ser feliz por tempo suficiente. As lágrimas são estes registros de quando a alma não suporta tamanha dor, restando apenas abandonar o corpo, escorrendo para bem longe do coração, se possível caindo na terra, e quiçá, regando o chão seco de vidas sofridas, incompreendidas e desmedidas. Tristeza produz lágrimas.

A decepção não produz lágrimas. A decepção está um passo além da tristeza, é onde as lágrimas não mais têm forças para serem expelidas, é onde a pasmalidade dos fatos produz apenas silêncio e olhares distantes. A decepção é sempre mais profunda e mais perversa que a tristeza, pois quando se está triste se chora, mas quando se está decepcionado não mais consegue chorar. A decepção é o resultado de sucessivas tristezas, que de tanto se repetirem produz um estado doentio de normose existencial. Decepção é quando nos acostumamos com a tristeza, por isto não há espaço para as lágrimas, pois o choro nunca resulta da cotidianização dos desafetos. A decepção é mais sombria que a tristeza, é mais miserável que a dor, é mais nefária que a aflição. Decepção não produz lágrimas.

A distância que há entre tristeza e decepção é a mesma distância que se percorre até um sonho abandonado, de uma esperança esquecida, de uma palavra não dita e de uma história não vivida. A distância que há entre ambas é variável, pois a tristeza de uma pessoa pode ser mais longa que de em outras histórias. De contrapartida, a decepção de alguns pode ser mais curtinha que em outros corações. Entretanto, uma coisa é certa, a decepção sempre está logo depois da tristeza. Então, cative sua tristeza e jamais se encante com a decepção, pois enquanto tristeza é rio que passa, decepção é lama incrustrada que sufoca. Então, alegre-se por conseguir ficar triste, pois as lágrimas se renovam. Triste mesmo é encontrar-se em decepção, pois ali nada mais importa.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 15 de Julho de 2017]

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sobre danças, músicas e outras insanidades


“O homem tem medo de sua espontaneidade (...) o homem temerá viver apelando à sua espontaneidade até que aprenda a provocá-la”.
Jacob Levy Moreno (1889-1974) 

Enquanto pequenos dançamos, sem ninguém nos ensinar, sem ninguém nos constranger. Dançamos, pois é isto que se faz quando se está feliz. Dançamos sem saber os passos ao certo, sem ter uma coreografia coletiva a ser imitada por todos, sem ter muita ginga ou molejo. Não era preciso saber dançar para dançar. Simplesmente dançávamos. Dançar é um ato de liberdade, ousadia e rebeldia. Dançar é confrontar o adestramento moderno de ritmos enjaulados e bailarinos emudecidos. Dançamos, pois é isto que fazemos quando somos.

Lá também cantávamos, desafinados, meio gritado, um tanto quanto engargantado. Contudo, isto não importava, é preciso por pra fora toda sonoridade que ecoa dentro de nós. É preciso dar voz e ritmo a nossas desilusões e ilusões. Quando pequenos não precisávamos saber a letra da música para cantarmos, afinal, cantar não é uma função decorativa do cérebro. Cantar é, antes de tudo, um ato de neurose eufórica de existência humana. É um estereótipo de nossas desconformidades. Cantávamos, pois é isto que embala nossos corações e razões. Cantamos, pois é preciso romper o silêncio do que somos.

Depois de tantas, crescemos. Então, nos esquecemos de como se dança, ficamos envergonhados por não saber os passos repetitivos dos iguais. Lá, dançar não é pra todos, é espetáculo a ser admirado, contemplado, mas nunca partilhado. É muito triste não poder mais dançar, mas mais triste é admirar os que dançam, pois isto é contemplação nostálgica daquilo que um dia fomos. Quando dançar for para poucos, então, muitos perdem. Dançar é tipo saltar, desestabilizar o corpo, confundir as possibilidades... dançar tem que ser mais que harmonizar, é preciso que haja destoação. Dançar é, portanto, uma apresentação única, às vezes, na maioria das vezes, sem espectadores. Dançar é o que fazemos quando descobrimos o que somos.

Lá pelas tantas, daquela mesma época, nos dizem que cantar é uma arte clássica, com difíceis melindres artísticos. Para tanto, elitizaram a música. Tornaram as notas inalcançáveis, ditaram as letras do que é aceitável, rotularam a cultura popular regional como algo inaudível. Tristemente, e inevitavelmente, criaram o karaokê. Neste tempo, catamos apenas as letras já cantadas, no ritmo já dado, nas notas já postas. Enlatamos a música. Cantar bem poderia ser tipo aquelas frases incognoscíveis que balbuciávamos quando pequenos, que tinham todo sentido para além das palavras. Cantar bem poderia voltar a ser despretensioso, sem sequência predeterminada, para dar o tom que estiver disponível para colorir quem de fato somos.

Cantar e dançar são expressões de nossa identidade social, é o que nos define, nos distingue, é o que desnuda nossa mais bela insanidade idiossincrática. Perdemos muito por só andar e só falar, por só correr e gritar. Perdemos muito por não mais conseguirmos nos expor ao ridículo da música e do baile. Tristemente, nos marionetamos aos limites dos sons pré-formatados e igualmente nos fantocheamos na sutileza das coreografias pré-estabelecida. Enfim, domesticamos nossa insanidade, e a comprovação de tal genocídio artístico é que perdemos a habilidade de dançar e cantar, como fazíamos enquanto pequenos.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 10 de Outubro de 2015]

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O desafio da inutilidade


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Clarice Lispector (1920-1977) 

Ser útil é muito cansativo! Não sobra tempo para perder, não resta opções sem resultados, não há espaço para desinteressar-se, não carece de quietude. Ser útil é confundir-se com que se faz. É ser julgado pelo que se produz. É caminhar sempre em frente. Ser útil é muito chato! Descobrir-se útil é emaranharem-se numa teia horrenda de interesses, trocas e desgastes. O útil é interessante, pois sempre tem algo a oferecer para outrem, sempre tem um conselho motivador, sempre está pronto para o que quer que precise, sempre tem que estar “lá”. Ser útil é uma futilidade! O útil não vê utilidade em cultivar flores, apenas quer árvores frutificas, pois estas lhe dão retorno. O útil não vê utilidade em andar a pé, apenas quer se locomover rápido, pois o que lhe interessa é chegar logo “lá” e rapidamente ir para outro lugar “lá longe”. O útil não consegue criar identidade, pois não passa tempo suficiente “lá”.

No cenário contemporâneo, infelizmente, as nossas relações se dão pela capacidade de utilidade das pessoas. Tristemente, somos amigos daqueles que podem nos oferecer algo. Dificilmente teremos amigos inúteis, pois afinal estes não servem para nada. Estranhamente, amigos tem que ser úteis, tem que produzir algo, tem que oferecer alguma coisa, tem que ter relevância. Neste contexto de utilidades não resta espaço para amigos deficientes físicos ou mentais, pois estes têm pouco a oferecer de útil frente aos padrões de sucesso moderno. Quase não temos amigos crianças, pois igualmente estes são infantis, e não temos tempo a perder com coisas de crianças. Poucos são os que têm amigos velhos, pois estes já não tem mais vigor para produzir algo. Portanto, para o que tornamos, os amigos tem que ser úteis.

Ao findar um filme queremos entender a relevância da história ali contada, como se tudo na vida tivesse que ter sentido ou tivesse que ter finais lógicos e meritocráticos. Filmes “sem finais” nos deixam inquietos e frustrados, pois queremos sempre que as coisas cheguem há algum lugar, e saber que nem sempre no fim as coisas dão certo, ou que às vezes nem se tem um fim, produz desordem mental e emocional às nossas vidas úteis. Não suportamos o estado de inconclusão, de não obviedade, de contemplação, de suspensão. Nos tornamos úteis demais para suportar o inacabado. Nos tornamos úteis demais para tolerar a inutilidade de qualquer coisa. Nos tornamos úteis demais para perceber os detalhes de uma história. Nos tornamos úteis demais para entender aquilo que precisa de sensibilidade. Nos tornamos úteis demais para não entender algo.

Enfim, quero redescobrir minha grande inutilidade, e então, reaprender a viver!

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 12 de Agosto de 2015]

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Pequeno soluço de vivência

"Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação de meus desejos afligidos".
Cecília Meireles (1901-1964)

O espelho da existência reflete a história de vidas que o tempo não pode apagar. É perscrutar o íntimo daquilo que outrora fora e contemplar o futuro que um dia será. Com certeza, isto nos faz repensar sobre as palavras que se tem escrito na autobiografia da vivência. Sendo assim, a vida é feita de decisões, onde erros e acertos são duas faces de uma mesma moeda. Ao final, as lagrimas que rolam no rosto sofrido encontram nos lábios o sorriso perdido.

Ousar viver é redescobrir em cada manhã a oportunidade de chegar mais alto. É aventurar-se na selva das vivências e decodificar o mapa do tesouro de se estar vivo. É atrever-se há decifrar o tempo e ser protagonista da comédia chamada vida. De nada adianta construir casulos na tentativa de se proteger dos perigos de se estar vivo. Estar vivo é o maior risco que há.

A classe educacional chamada vida é definitivamente uma grande comédia. Por esta razão, os problemas do passado algumas vezes são as soluções do futuro. Os erros do pretérito, às vezes, se tornam em uma agradável rotina do presente. Os absurdos que aconteceram ontem podem se tornar normal amanhã. Por isto, é sábio olhar para trás, e avaliar a tortuosidade de nossas pegadas.

Desde o amanhecer até o sol se pôr, a escola da vida está de portas abertas para ensinar lições que o tempo insiste em não esquecer. Os anos passam, e, então, revelam os maiores paradoxos da existência humana: coragem e estupidez, ousadia e covardia, força e fraqueza. E é neste hilário abismo existencial do contraditório que se perceber que na jornada da vida os contra-sensos caminham de mãos dadas. Bem vindo à vida...

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 05 de Agosto de 2004]

sexta-feira, 29 de maio de 2015

De quando os loucos fogem


"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) 

Louco: maluco, perdido, confuso, obtuso, parafuso, insano, desvairado, descontrolado, desformatado, incompatível, anormal, existencial. Das multiformas de se enlouquecer, ou das multifacetas daqueles que já reconhecem suas próprias loucuras, dali se assevera que neste mundo prosopopeico não há mais espaço na cadeia cromática para aquelas cores inconciliáveis. Ser louco é experimentar o novo de forma nova, é desafiar os saberes que já estão embebecidos de lodos fungos, é contestar o óbvio dado e rasgar a cartilha de orientação dos preguiçosos ditadores do aceitável.

O louco é marginalizado por causa das insanidades que o mantem vivo, pois para os normais a loucura é sempre desconcertante e mui convidativa. Viver na loucura é fazer desta jornada previsível uma montanha-russa de sensações únicas, quase inexpressíveis, não por causa da insignificância, mas sim por causa da intransliteratividade do que se vive. Os loucos não são bem-vindos neste mundo de resultados esperados, pois dos loucos tudo se pode esperar, inclusive, espera nada.

Lá da nossa insanidade mais cognoscível se gangorreia: os terráqueos quando ficam parados estão refletindo, os loucos quando parados estão depressivos por causa da intolerância à anomalia; os normais quando falam muito é porque precisam desabafar, quando os loucos o fazem são rechaçados a esteria de tentar alertar acerca do fim trágico que todos nós estamos indo; quando os previsíveis mortais choram é por causa das mazelas da vida, quando os loucos choram é por perceber que todo o esforço de humanização se perdeu entre os da mesma espécie.

Há muito louco disfarçado de normal para ser aceito na sociedade dos carapalidas anormóticos. Igualmente a muitos desvairados normais que se trejeitam de loucos para serem aceitos por si mesmos. Assumir a nossa insanidade é um passo rumo à sanidade, pois nada se pode esperar daqueles que não desfrutam da sua própria maluquice. Assumir a nossa doidera existencial é reconectar com a esperança que orbita sob nossas cabeças. Assumir a nossa idiossincrasia esquizofrênica é perceber que somos únicos, não por causa de nossas especificidades, mas sim por nossa demência indivisível, porém partilhável.

O mundo precisa de mais loucos fora dos cativeiros, para além dos esconderijos, sem serem abafados, sem viverem marginalizados. A loucura precisa ser compartilhada, ser capaz de contaminar os intocáveis, e quem sabe, se tornar um vírus letal capaz de assassinar nossas normoses. Louco não é o diferente que se assumi diferente, mas sim aquele que acha ser capaz de viver neste presente século em paz, harmonia e bem-estar social coletivo. Somos todos loucos, quer seja pelo que somos, ou pelo que não queremos ser. Enfim, a loucura é um bem coletivo, um patrimônio cultural de ser humano, uma condição para se começar a viver.

É hora de se despir do traje de normal é redescobrir a nudez de se estar aqui. O louco é bem-vindo nesta confraria de amigos. Pra cá sempre há espaço para mais um que se sente deslocado frente à macha da humanidade moderna. É aqui que todo insano pode se assumir quanto gente. Junto aos loucos nos sentimos confortáveis, pois não precisamos usar as máscaras do normal. Junto aos loucos percebemos que é normal ser louco, por isto não mais precisamos disfarçar. Junto aos loucos podemos sorrir, dançar, brincar, cornetar e até reconectar. Quando os loucos fogem... todos perecem como loucos.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 29 de Maio de 2015]

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Ser medíocre


"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos".
Charles Chaplin (1889-1977) 

A terrível capacidade de se acostumar as mais bizarras situações da vida é indubitavelmente uma característica do ser humano. A facilidade em assimilar o vírus mortal chamado mediocridade tem cooperado substancialmente para corromper os valores. A triste certeza de que muitos nunca vão conseguir ser mais do que agora são, dói no mais profundo das faculdades intelectuais.

A mediocridade não é uma fase da vida, mas sim um estilo de vida. Os adeptos a esta maneira de ser desconhecem as palavras crescimento, evolução, amadurecimento, correção, aperfeiçoamento ou qualquer outra do gênero. Como disse Hamilton Verneck: “quem se rende a tentação do ninho jamais aprende a voar; quem não se aventura pelos mares, verá o casco de seu barco apodrecer em plenos cais; quem não ousar na vida profissional, ficará superado porque não foi capaz de dialogar com as mudanças que o tempo ofereceu”.

A mediocridade é uma desculpa que tem a aparência de humildade. A característica mais notável da luz é a formidável capacidade de desnudar a escuridão. Só pode notar a escuridão que se vive quando se permite que a luz seja superior. A sorte não existe quando se entende que a oportunidade e a capacidade são resultantes de uma busca intencional.

A mediocridade é uma doença, uma doença sem dor e sem sintomas visíveis. Contudo, mata espiritual, emocional, ministerial e profissionalmente um grande número de pessoas. Orison Swett Marden certa feita disse: “o início de um hábito é como um fio invisível, mas a cada vez que o repetimos o ato reforça o fio, acrescenta-lhe outro filamento, até que se torna um enorme cabo, e nos prende de forma irremediável, no pensamento e ação”.

O pior de todos efeitos colaterais da mediocridade é a hilária desculpa de culpar outros pelos fracassos próprios. O tempo não faz as pessoas se tornarem medíocres, apenas revela o que de maneira nenhuma pode esconder, o caráter.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 09 de Outubro de 2004]

terça-feira, 28 de abril de 2015

Encontros e desencontros


“navegar é preciso, viver não é preciso”.
Fernando Pessoa (1888-1935) 

A vida bem que poderia ser definida como um circo. Algumas vezes vesti-se de palhaço dando boas gargalhadas para abafar o tumor da tristeza no coração. Em outras ocasiões toma-se o lugar de mágico tentando surpreender as pessoas com truques incríveis, porém apenas ilusórios. A humanidade parece estar em um gigantesco picadeiro. E, dali, vestindo-se de malabarista usam de toda habilidade para não deixar as peças caírem evitando dessa maneira uma profunda frustração na platéia. Constantemente ocupa-se o lugar de domador de leões aventurando-se na difícil arte de controlar a fúria de outrem.

No palco da existência se contempla o maior circo da história. Existem aqueles que preferem ser como bons dançarinos encenando nas cordas da existência uma elevação da realidade. E finalmente, às vezes, prefere-se ser apenas o apresentador que surge na arena para aquietar o público no início e despedir a multidão no final. No circo da vida os artífices somos nós, e em meio aos encontros e desencontros das vivências iniciam-se as apresentações. Contudo, nem sempre se ouvirá aplausos, algumas vezes o único som que ecoará da platéia será uma vaia recriminatória.

A complexa arte de amimar os espectadores é um perigo apavorante e entusiasmante. Enquanto os protagonistas treinam incansavelmente para não decepcionarem a si mesmos, existem outros que, simplesmente, escolhem ser ridículos espectadores para julgar o esforço alheio. E neste emaranhado de públicos, que muitos se escondem, sozinhos. A aglomeração que se forma embaixo da tenda da vida expõe o individualismo da indiferença. Tristemente, isto reflete o quanto os artistas preferem não se encontrar para não provocarem desencontros.

No palco da vida quem está debaixo dos holofotes somos nós, nus, sem maquiagem ou pavonices. Juntos estamos a apresentar na arena da existência o que realmente somos. Não há necessidade máscaras, fantasias, mágicas ou malabarismos. Só precisamos encenar aquilo que tanto ensaiamos. E neste espetáculo inédito, vivido dia a pós dia, as plateias assistem quem somos. Então, deste ato solene surgirá encontros e desencontros que serão eternizados na memoria daqueles que viveram.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 09 de Março de 2009]

terça-feira, 31 de março de 2015

As falácias da paz


"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria".
Machado de Assis (1839-1908)

Os meios de comunicação social disseminam a idéia de que a humanidade tem que buscar a paz, entretanto, tais dizeres parecem mais frases de efeito triunfalista do que necessariamente um caminho a se seguir. Algumas vezes parece que o ser humano está num safári caçando a paz no meio da floresta capitalista, pois a bem da verdade para muitos a paz é um meio de se enriquecer. Outras vezes tem-se a impressão que a paz é um alienígena distante e que um dia o homem terá contato com este ser intergaláctico chamado p.a.z. e quem sabe assim conseguirão viver felizes para sempre como num conto de fadas infantil.

A triste realidade é que a paz se tornou um objeto a ser vendido, uma utopia a ser vivida e um atalho para se chegar há lugar nenhum. A paz não é uma varinha mágica que tem poderes incríveis, nem é uma palavra para filosofias positivistas que quando dita muitas e repetidas vezes produz mudanças no mundo físico. Fica notório que a paz é algo comunitário e intrinsecamente social.

A paz tem que promover a paz. Entretanto, várias tem sido as facetas da paz num mundo de interesses. Por isto, torna-se imprescindível entender que a paz não pode privilegiar alguns e silenciar outros, não pode dar poder para uns em detrimento do enfraquecimento das massas e não pode produzir sorrisos na minoria e irradiar tristeza na maioria. A paz não é um troféu para celebrar os fracassos que insistem em ficar escondido das lentes das câmeras para assim gerar a ilusão passista na platéia da vida.

A paz que muitos buscam não poucas vezes tem sido confundida com a falta de esperança, pois aparentemente os sintomas são semelhantes. Quando não se tem algo pelo qual lutar tudo fica aparentemente sossegado, daí alguns preferem entender este sentimento como paz. Quando não se tem expectativas tudo se limita ao mero contentamento, por ter ausência de exigências alguns acreditam então ter encontrado a paz.  A triste realidade é que quando não se tem a coragem de te esperança a vida passa a se assemelhar há uma tarde de domingo, sem pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que se quer dar, e isto é para muitos a tão procurada paz. Tristemente, o que estes vivem não é paz, mas sim um paradoxal vazio.

A humanidade alcançará a verdadeira paz não quando abandonar a esperança (os sonhos), mas exatamente quando ousar ter esperança num mundo que é desmedidamente desesperançoso. Infelizmente, confunde-se paz com negligencia da realidade, confunde-se paz com ausência individualista, confunde-se paz com não se apaixonar, confunde-se paz com não se envolver e confunde-se paz com pontos de vista.

Um dia a humanidade se encontrará com a tão procurada paz, mas talvez não vá reconhecê-la. Haverá um dia em que a paz será palpável a todos os indivíduos, mas muitos não a tatearão, pois ela é simplesmente a paz. Um dia as pessoas descobrirão uma paz que não é vendida como produto padronizado numa gôndola de supermercado ou mero produto a ser mercadejado pela mídia. Um dia o ser humano conseguirá alcançar a paz não pelas ausências do ser, mas pela presença do viver.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 14 de Maio de 2006]

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cegos, corcundas e lesionados


“sábio é o homem que chega a ter consciência de sua ignorância”.
Barão de Itararé (1895-1971)

A cada geração um novo perfil existencial se reformula, agregando valores do passado, superando limitações de outrora e recriando novas deformidades. Estar vivo é andar em metamorfose. No presente século três deficiências patológicas são imanentes à existência: ser cego, corcunda e lesionado. Cego por usar muito o celular, tablet, notebooks e PC’s em geral com uma proximidade errada e iluminação inadequada; está é uma geração de crianças com pouca visão. Corcunda por igualmente usar os aparelhos supra citados anteriormente com a postura errada, dilacerando paulatinamente a coluna e provocando uma inevitável encurvadura; está é uma geração de pessoas entortadas. Lesionado porque, a despeito da má utilização dos referidos equipamentos, fica-se (e fixa-se) por horas a fio digitando (catando letras) nos teclados virtuais; está é uma geração de gente com dores precoces.

Da tríade: “cegos, corcundas e lesionados” desencadeia-se uma evolução duvidosa sobre a nossa identidade social, ideológica e mitológica. Escuta-se esbravejar uma suposta falta de tempo que não coincide com a realidade do tempo empregado em redes sociais e bate-papos. A verdade, obscurecida, é que estamos mais carentes de afetos, por esta razão buscamos conversar ao máximo com o maior número de pessoas (o mais virtual possível) para que não haja tempo de nos a perceber no vazio que habita em nós fora das conexões da internet. Estamos correndo muito para cansarmos ao máximo e assim não termos tempo de contemplar a inutilidade de nossa jornada. Sonhamos alto para não ter que enfrentar a dura realidade que assola as noites silenciosas. Desta maneira, não seremos chamados de fracassados, mas sim de sonhadores (codinomes e pseudônimos da virtualidade dos nossos discursos).

Da tríade: “cegos, corcundas e lesionados” revive-se, tipologicamente, o corcunda de Nortre-Dame que reconhece sua submissão tola a um sistema frágil e corrupto. Reacende em nós a chama da liberdade, mesmo nunca tendo estado lá. Denuncia nossa “feiosidade” frente ao mundo de belezas estilizadas com películas de fotos e ajustes de fotoshop. Sendo assim, além de corcunda personifica um frankenstein que se esconde nas letras de um bate-papo qualquer, tampando as mais terríveis deformidades de caráter com medo de sermos visto como somos, sem sorrisos, sem efeitos, apenas sendo humano. Gente esta que aprendeu a submeter-se aos padrões mais ridículos por puro desdenho ao criador, gente que esquece que mesmo sendo criatura temos personalidade, temos identidade. Somos, então, tão diferentes que não mais nos vemos como iguais, desprezando o outro que, para além da virtualidade, também sucumbi a terrível realidade da vida.

Ser “cego, corcunda e lesionado” não é um estereótipo moderno, é o que nos define. Longe de ver a realidade por causa da sombra que esconde a verdade óbvia; encurvados frente a uma máquina que escraviza impetuosamente as mentes infantis de gente adulta por causa das facilidades inexplicáveis; lesionados no coração, na alma e no espírito, sendo a mão apenas um sinalizador que a dor é mais profunda por causa de nossa integração humanística. Sim, somos cegos, apesar de vermos vários rostos no facebook, semblantes que não significam nada. Sim, somos corcundas, apesar de discursarmos superioridade machista ou feminista, pouco importa, ambos perderam a noção de equidade. Sim, somos lesionados, apesar de sermos a geração do bem-estar fitnes, que faz pouse para o outro admirar ou repudiar. Tristemente, nos tornamos um retrato de tudo àquilo que evitamos histórica e socialmente.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 12 de Fevereiro de 2015]

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Mudando as mudanças


"Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado”.
Clarice Lispector (1920 – 1977)

O extremismo humano é uma característica assustadora que, ironicamente, cada vez mais tem caracterizado a modernidade tardia. A falta de equilíbrio e a ausência de fundamentação (enraizamento) têm conduzido incontáveis pessoas a viverem inúmeras crises de identidade, ou pelo menos denuncia uma busca por identidades. Categoricamente pode-se ponderar que alguns vivem no comodismo, outros no modismo e ainda existem alguns que se constroem a partir dos alicerces no mudancismo (neologismo apropriado para conceituar os apaixonados por mudanças - de qualquer gênero, razão ou por pura diversão). Os adeptos ao mudancismo são aqueles que mudam tanto que sempre acabam voltando para o mesmo lugar - mesmo que não percebam e não queiram.

As mudanças fazem parte da jornada de qualquer um. As mudanças são necessárias. Entretanto, é válido arrazoar que tanto o viver acomodado quanto o orbitar irracionalmente na arte de sempre mudar são raízes do mesmo mau, quase sempre caracteriza apenas como um modismo temporal. Então, percebe-se notoriamente uma guerra político-teórica-praxiológica entre ambos, disputando algo que jamais pertencerá a nenhum dos dois grupos. Busca-se a singularidade, mas se todos fazem, perde-se. Procura-se originalidade, mas se é influenciado por outrem, confunde-se. Necessita-se de identidade, mas somos seres inconclusivos, muda-se. Por esta razão, tomar uma decisão, ainda que conscientemente errada, só para diferenciar dos demais é aderir ao movimento do mudancismo.

É preciso caminhar mudando as mudanças para não viver acomodado com as mudanças. Mesmo que ainda o que reste é incorporar o estado de “agentes de mudanças”, como que num soluço existencial tateando superar a crise de identidade e/ou a carência afetiva (e efetiva). Portanto, mudar não deve fundamentar a vida. Contudo, faz-se necessário fundamentar as mudanças da vida – mesmo sabendo que há uma incompletude de saber o que a nós acontece. É impreterível que imerja-se nas mudanças a partir de um por que, mesmo que não se tenha um porquê. Seguir mudando sempre é acomodar-se com as mudanças, e sendo assim perde-se a bela singeleza das mutações tão altivamente defendidas. Ao acostumar-se em nunca ser corriqueiro percebe-se, um dia desses, que sutilmente apenas aderiu-se a rotina de não ter rotinas – mudancismou-se a si mesmo.

Nunca entenderemos efetivamente o valor das mudanças com as quais aderimos tão calorosamente, porém uma coisa é intransponível por nossa ignorância: não conseguimos ser os mesmos mais que um milésimo de segundo consecutivo. Então, mudar é natural e inerente a vida, não precisamos forçar os tempos, acreditando sermos construtores de nossas próprias histórias inéditas. Reconheçamos que somos tipo uma jangada existencial num incerto mar enfurecido. Sendo assim, mudanças virão (e que sabe até alguns viram), não precisamos aderir ao mudancismo para reafirmar nossa autonomia antropológica. Somos seres mudáveis por definição.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 15 de Junho de 2005]