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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Da contradição em ser contraditório


“Quero dizer o que eu penso e sinto hoje, com a condição de que talvez amanhã eu vá contradizer tudo”.
Ralph Waldo Emerson (1803-1882) 

Da contradição em se ter liberdade de contradizer, é o que nos torna extremamente coerentes. Por isto a lógica moderna é ser pós-moderno para tentar parecer não viver nesta turba de conflitos inexplicáveis, que tanto nos explicam. Sendo assim, o sucesso pode ser facilmente delimitado, marcando uma territorialidade com giz de cera, demonstrando com riscos ao chão os limites do fracasso. Portanto, é blasfêmia qualquer forma de categorização, sendo por si só uma bizarrice contraditória, uma tentativa infame de ordenar os organismos rebeldes.

A contradição permite desvelar os temores daqueles que insistem em mudar para nunca terem que mudar. Preferem gritar em seus próprios ouvidos as diretrizes de um caminho já percorrido, que de tão desgastado ficam a pisar onde outros já pisaram, mesmo que com o glamour de originalidade aplausível. Gente em efeito manada, que corre sem saber por que, nem pra que, simplesmente corre em direção ao nada. Que contraditoriamente, lá onde fica o nada, quem sabe, talvez, podem-se descobrir os significantes de tantas normoses, e enfim, entender tudo.

Contra o dizer pode não ser tão contradizente como se mostra, pode ser apenas uma releitura distante, uma recostura às avessas, ou até quem sabe um óculos inadequado para uma realidade adequada. Afinal, somos feitos de desmedidas exigências que ecoam no cósmico da visibilidade. Sendo assim, tudo pode parecer sem sentido, e ai sim ganhar sentido. Sentido não de rumo, não de direção, mas sim sentido de sentido – tipo estas coisas que não se explicam, mas que todos sempre entendem. Entendeu?

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 29 de Dezembro de 2015]

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O que nos falta é criatividade


“O maior inimigo da criatividade é o bom senso...”.
Pablo Picasso (1881-1973) 

O rumo para o qual estamos indo é sabido. Todos estão indo pra lá. Uma odisseia sem muita diversidade, sem muita identidade, sem muita intencionalidade e sem muita criatividade. Estamos indo, seguindo a maré. Sendo governados pela sonoridade da mídia que teatraliza e uniformiza a todos, nos tornando reféns de nossas próprias histórias. Há até uns discursos destoantes, mas, às vezes, parece que até isto é intencionalmente previsível. Tentam, convictamente, mostrar que o diferente é disforme, esquizofrênico, maléfico, alucinógeno, e coisas do gênero. Querem que acreditemos que ser distinto é uma esquisitice intolerável frente aos fracassados padrões desta sociedade do sucesso visível.

O principal sustentáculo de toda esta carência criativa é a culpabilidade, do outro, claro. Há de se culpar alguma coisa, alguém, algum passado, e quem sabe até o preconizar a culpa do futuro. Culpam a falta de recursos financeiros, e assim, se sujeitam a não conseguirem chegar para além da medíocre linha do sucesso empresarial. Culpam o governo pelas faltas sociais, e assim, encantam a si mesmos com enfadonhos discursos sobre a intangibilidade humanitária. Culpam os opressores do passado, e assim, encontram a grande desculpa para se acomodar no deleite do fracasso justificável. Culpam algumas pessoas por qualquer coisa, e assim, se escondem no revigorante vale das deliciosas acusações.

É preciso ir além. Até na arte de culpar é preciso que haja mais criatividade, pois estes discursos já caducaram. Não convencem mais. Apesar de ainda serem muito funcionais entre os romeiros da igualdade – por isto, repetir o que já foi dito é confortante, cumprimentar o outro com um pergunta que nunca tem resposta é amigável, descrever o óbvio com eloquência é admirável e escrever muito sobre o que todos sabem é enriquecedor. É preciso reinventar o que estamos fazendo! É preciso dizer verdades com um pouco mais de mentiras e, quem sabe, conseguir mentir com um pouco mais de verdade (verdades aqui representam nossas convicções mais concretas, e mentiras aqui representam nossas convictas incertezas, que geralmente as ridicularizamos).

A criatividade permite gangorrear, perder, arriscar, não saber, contemplar, chorar, enlutar, indagar, silenciar, desdomesticar, desadestrar, desmecanizar, despir... enfim, as pessoas criativas sabem que tristeza não significa estar triste, nem alegria significa estar alegre. Sabem que estar vivo não significa estar respirando, nem morrer significa estar enterrado. Pessoas criativas rompem o cativeiro das categorias. Rompem o estereótipo. Superam os estigmas. Por isto, precisamos de mais criatividade. Precisamos de cantores mais desafinados, de escritores mais analfabetos, de artistas mais despreparados, de professores com mais dúvidas, de carteiros sem endereços, de dançarinos sem música, de palhaços sem maquiagens, de repórteres sem notícias. Precisamos de pessoas desrotularizadas. Para que haja criatividade precisamos de liberdade. Liberdade de fazer feio, de não ser aceito, de contradizer. Liberdade de criar...

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 16 de Junho de 2015]

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A linguagem poética no brasil contemporâneo


"...Para não ser o escravo mártir do tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".
Charles Baudelaire (1821-1867)

A historicidade da linguagem poética[1] no contexto brasileiro apresenta várias facetas e implicações sociais. Por ser abrangente tanto em autores, quanto em movimentos literários, será destacado neste primeiro capítulo apenas um poeta de cada período poético brasileiro dos séculos XX e XXI. Priorizando os fatos sociológicos e antropológicos que orbitam sob a pena dos escritores tupiniquins[2]. Sendo, portanto, necessário analisar a vida e a obra dos poetas com a cosmovisão peculiar de suas próprias épocas. Entendendo que cada estrofe poética agrega em si a intencionalidade, a provocação e a integralidade social. Ser poeta não é apenas escrever sobre as nuances da vida de forma estilizada, mas consiste em sensibilizar-se com o viver humano.

A história recente da linguagem poética brasileira se inicia com o período denominado “pré-modernismo”, também conhecido como estética impressionista, podendo ser datado entre 1910 e 1920. Os principais poetas desta época são: Olavo Bilac, Da Costa e Silva, Pedro Kilkerry, Raul de Leoni, Machado de Assis, entre outros. Deste período destacaremos o poeta, escritor, jornalista e contista Machado de Assis. Ele nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, faleceu em 29 de setembro de 1908 – ou seja, 69 anos de idade. Entre suas principais obras se destacam: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”. Escreveu muito sobre o realismo da vida, sobre suas desventuras pessimistas, apesar do notório romantismo nos textos machadianos.

A percepção sociolinguística[3] nos escritos de Machado de Assis é perceptível, para tanto é válido destacar que: “O autor realista procura retratar a verdade observável no presente, evitando aquilo foi gosto típico do romantismo brasileiro (...) este estilo é capaz de reproduzir o verdadeiro relevo das coisas e sublinhar com maior firmeza a ação dos caracteres (...)  Machado de Assis ...achou no teatro de Shakespeare, principalmente, dramas humanos que ele achou deveriam aparecer em romances (...) o romance, para conter realismo convincente precisa dos conflitos humanos e de muita caracterização de personagens” (BAGBY JUNIOR, 1933, p. 20,27).

No período denominado “modernismo”, conhecido também como movimento modernista – tendo como data provável a primeira metade do século XX. Os principais poetas desta época são: Carlos Drummond de Andrade, Augusto Meyer, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Mário Quintana, Vinicius de Moraes, entre outros. Destacaremos o poeta, cronista e contista Carlos Drummond de Andrade. Ele nasceu em 31 de outubro de 1902, em Itabira – Minas Gerais, veio a falecer em 17 de agosto de 1987 com 85 anos de idade. Dentre suas obras poéticas é merecedor de destaque: “Brejo das Almas”, “Sentimento do Mundo”, “Lição de Coisas”, “Viola de Bolso”, “A Vida Passada a Limpo” e “Novos Poemas”. Drummond promoveu a liberdade poética, extrapolando os padrões rígidos da época, usando-se da poesia como forma libertadora.

No que tange a relação sociolinguística drummondiana valeremos dos escritos de LIMA, que afirma: “Drummond concentra-se nas impressões que lhe causa o amor entre as coisas do mundo – ‘amor cachorro bandido trem’ – (...) o eu nostalgicamente contempla um amor situado entre as estrelas, cuja representação lhe parece agora impossível. Embora nos anos cinquenta a situação inverta-se, a tensão entre analogia e ironia não desaparece. O poeta concentra-se na visão do amor fora do tempo, mas o confronta à existência” (LIMA, 1995, p.17).

Num período relativamente mais próximo ao presente temos o então chamado “geração de 45”, um grupo que ganhou evidência no modernismo brasileiro. Desta época podem-se destacar os poetas: Carlos Pena Filho, Fernando Ferreira de Loanda, Geraldo Pinto Rodrigues, Lêdo Ivo, Paulo Bonfim, Péricles Eugênio da Silva Ramos. Concentraremos nossa analise em Carlos Pena Filho. Ele nasceu em 19 de maio de 1929, na cidade de Recife, veio falecer no dia 10 de junho de 1960 com apenas 31 anos de idade. Ele é considerado um dos maiores poetas/escritores pernambucanos na segunda metade do século XX. Sua obra é composta pelos títulos: “o tempo da busca”, “memórias do Boi Serapião”, “a vertigem Lúcida” e “livro geral”. Pena foi um poeta política e teve sua histórica emaranhada na vida pública de Pernambuco.

O estilo de Pena por si só já faz paralelo congênere com a sociolinguística, porém com fins a endossar a luta poética dos pernambucanos citaremos parte da obra organizada por CAMPOS e CORDEIRO, que reforçam: “Pernambuco, com suas revoluções falhadas, com seus movimentos libertários abafados a ferro e a fogo, é uma espécie de D. Quixote da Federação (...) aqui, em nossas terras, o poeta cristão-novo Bento Teixeira fez o primeiro poema do Brasil, Prosopopéia. Daqui saíram as primeiras imagens do Mundo Novo. Aqui, forjou-se o berço da nacionalidade. Pernambuco não se cansa de sonhar, de criar, de fazer poesia” (CAMPOS e CORDEIRO, 2005, p. 35,36).

Após a famosa “geração de 45” chegamos ao que parece ser sua imediata consequência, denominada pelas nomenclaturas “concretismo, neoconcretismo, práxis e poema-processo”. Os poetas destaques desta época são: Álvaro de Sá, Dailor Varela, Dércio Pignatari, Haroldo de Campos, Mário Chamie, entre outros. Daremos destaque ao poeta e crítico brasileiro Mário Chamie. Ele nasceu em 1° de abril de 1933, em Cajobi, faleceu em 3 de julho de 2011 – com 78 anos de idade. Sua obra é vasta, ganhando grande destaque com: “intertexto”, instauração práxis” e “palavra inscrita”. Ele abandonou o concretismo e fundou o movimento da poesia-práxis.

Neste período poético defendia-se a racionalidade e rejeitava-se toda forma de expressionismo, como endossa BOSI: “A poética do grupo práxis vincula a palavra e o contexto extralinguístico (...) o autor práxis não escreve sobre temas. Ele parte de áreas (seja um fato externo ou emoção), procurando conhecer todos os significados e contradições possíveis e atuantes dessa área, através de elementos sensíveis que conferem a elas realidade e existência (...)” (BOSI, 2006, p. 483).

Por fim, chegamos aos poetas contemporâneos, que a semelhança dos demais tem em suas poesias temas e relevância sociolinguística. Mesmo sendo difícil definir a identidade de um movimento literário vivendo na mesma época, é necessário contextualizar e contemporanizar. Portanto, neste período destacam-se os poetas: Adélia Prado, Ariano Suassuna, Carlos Nejar, Chacal, Dora Ferreira da Silva, Ivan Junqueira, José Chagas, Lélia Coelho Frota, Neide Archanjo, Roberto Piva, Ruy Espinheira Filho, entre outros. Enfatizaremos o escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna. Ele nasceu em 16 de junho de 1927, João Pessoa na Paraíba. Dentre seus escritos há destaque para: “auto da compadecida”, “torturas de um coração”, “o romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta” e “sonetos de Albano Cervonegro”. Por ser contemporâneo, os seus escritos desnuda a fragilidade da presente cultura brasileira e seus principais problemas sociais como pobreza, religiosidade e politica.

Sobre Suassuna ainda há muito a se descobrir, mas temos algumas gotículas de função poética a serem lidas e interpretadas a partir do cotidiano. Como afirma NEWTON JUNIOR: “...a poesia de Suassuna, desde o início, trilhou caminhos muito particulares, principalmente a partir do momento em que o escritor procura vincular sua produção de poeta erudito, e mesmo clássico, ao romanceiro popular nordestino. A presença, a sua poesia, do elemento popular, e a intenção explícita de fazer uma poesia erudita tomando com ponto de partida a produção poética do nosso romanceiro, permitem-nos falar de uma poesia armorial...” (NEWTON JUNIOR, 1999, p. 48).

Os poetas, independente de sua época histórica, ocupam lugar de destaque na releitura de mundo. Estes que chamamos de poetas são pessoas que embutem uma nova perspectiva social aos seus leitores e em si mesmo; são escritores que ousam burilar inquietudes nos corações, especialmente em seus próprios; são gente da gente que querem usar a letra como ferramenta artesã de visões além do óbvio. Por esta razão Vinicius de MORAES (2004, p. 14) escreveu no poema “O Poeta” a seguinte descrição: “A vida do poeta tem um ritmo diferente | É um contínuo de dor angustiante | O poeta é o destinado do sofrimento | Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza | E a sua alma é uma parcela do infinito distante | O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende. | (...) | A vida do poeta tem um ritmo diferente | Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu | Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis”.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 02 de Dezembro de 2013]



[1] A poesia parece estar mais do lado da música e das artes plásticas e visuais do que a literatura. (...) de fato, a poesia é um corpo estranho nas artes da palavras. (...) Poesia é a arte do anticonsumo. A palavra “poeta” vem do grego ‘poietes = aquele que faz’. Faz o quê? Faz linguagem. (...) O poeta faz linguagem para generalizar e regenerar sentimentos” (PIGNATARI, 2004:9,10)
[2] No senso comum o termo tupiniquim configura-se em uma metonímia de Brasil ou brasileiro.
[3] O termo sociolinguística refere-se a uma área específica da lingüística que se ocupa em relacionar a língua e a formas culturais de sociedade. Destaca-se a maneira como a linguagem é usada e os efeitos do uso na cosmovisão peculiar de determinada época, étnica ou subgrupo.


::Referências Bibliográficas::
BAGBY JUNIOR, Alberto Ian. Machado de Assis e seus primeiros romances. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1933.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
CAMPOS, Antônio e CORDEIRO, Cláudia. Pernambuco, terra da poesia: um painel da poesia pernambucana dos séculos XVI ao XXI. São Paulo: Escrituras Editora, 2005.
LIMA, Mirella Márcia Longo Vieira. Confidência mineira: o amor na poesia de Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1995.
MOARES, Vinicius de. O Poeta não tem Fim. São Paulo: Vergara & Riba Editoras, 2004.
NEWTON JÚNIOR, Carlos. O Pai, o Exílio e o Reino: A poesia armorial de Ariano Suassuna. Recife: UFPE, 1999.
PIGNATARI, Décio. O Que é Comunicação Poética. São Paulo: Ateliê, 2004.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Os pobres e a exclusão socioeducacional


“Superar a pobreza não é um gesto de caridade. É um ato de justiça; É a proteção de um direito humano fundamental, o direito à dignidade e a uma vida decente”.
Nelson Mandela (1918-2013) 

A pobreza é uma realidade nos rincões brasilianos[1], e tal mazela tornar visível a incapacidade humana de interagir socialmente tendo em visto o bem coletivo, provocando a marginalidade. Neste viés, sem as devidas análises históricas-antropológicas, “os pobres são identificados com o banditismo, o crime, a prostituição, a mendicância e outros fenômenos da patologia social, constituindo a classe perigosa” (LAPA, 2008:18). É imprescindível que se desenvolva um estudo sistemático sobre os pobres, postulando sobre as raízes etnográficas desta subclasse social, discorrendo sobre as âncoras que abalizam a consciência social destes e pesquisando sobre a formação cultural-cosmológica dos excluídos.

A pobreza, quando não analisada de forma sociológica pode, erroneamente, ser categorizada, precocemente, apenas como má sorte de alguns que por não terem capacidades “especificas” permanecem pobres – ignorando toda e qualquer relação/ responsabilidade dos semelhantes seres humanos. Temas sociais estes abordados no poema de LIMBERGER (2002:85) intitulado Sociedade Capitalista: “Ganância, lucros e juros | Desumanização | A bolsa de valores | Jogo capitalista | (...) | Desigualdade social | Ferida aberta | Sem saída | Fechar-se em um pequeno mundo | Cercado de grades e muros | Em volta tudo que o dinheiro possa comprar”.

As desvirtudes presentes nas comunidades em estado de vulnerabilidade social tem recebido uma nova reconstrução na cosmovisão pós-moderna, como aponta MARTINS: “no Brasil, políticas econômicas atuais, que poderiam chamar-se neoliberais, acabam por provocar, não políticas de exclusão e, sim, políticas de inclusão precária e marginal, ou seja, incluem pessoas nos processos econômicos, na produção e na circulação de bens e serviços estritamente em termos daquilo que é racionalmente conveniente e necessário à mais eficiente (e barata) reprodução do capital” (MARTINS, 1997:20). Neste sentido, os meios de produção industrial e as instituições educacionais fomentam uma falsa acessibilidade humanística/social que acoberta a real exclusão dos pobres, que são usados apenas como força motriz do mais-valia[2] de Marx. Tal intendo só é possível por causa do rompimento antropológico do ser humano com sua própria historicidade e por causa da desconstrução social dos grupos marginalizados com sua própria relação mercantil.

As comunidades que se localizam nas periferias coexistem distantes dos centros urbanos, sendo que a priori esta pobreza “não transforma homens em ralé” (HEGEL, 1997:277). Contudo, agregado a este distanciamento urbano surge as dificuldades de acesso a informação, escolas, faculdades, leitura, manifestações culturais, poesia, por conseguinte apresentam uma baixa renda familiar. Uma das grandes carências destas comunidades de excluídos[3] é a ausência de programas, contínuos e intencionais, que fomentem o desenvolvimento socioeducacional desta gente. Tendo em vista que as limitações socioeducacionais impostas pelo estado de pobreza dos grupos minoritários descortinam os fatos sociais[4] que os mantem em condições marginais.

A linguagem poética pode ser utilizada como ferramenta de combate ao analfabetismo e/ou analfabetismo funcional[5] - sendo estes os principais fatores que mantem tais grupos no submundo do Capitalismo, forçando-os a serem explorados socialmente, inaptos educacionalmente e estereotipizados antropologicamente. O escritor e poeta José SARAMAGO endossa tal pressuposto no poema Fala do Velho do Restelo Ao Astronauta (1997:84): “Aqui, na Terra, a fome continua, | A miséria, o luto, e outra vez a fome. | Acendemos cigarros em fogos de napalme | E dizemos amor sem saber o que seja. | Mas fizemos de ti a prova da riqueza, | Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez. | E pusemos em ti nem eu sei que desejo | De mais alto que nós, de melhor e mais puro. | No jornal soletramos, de olhos tensos, | Maravilhas de espaço e de vertigem: | Salgados oceanos que circundam | Ilhas mortas de sede, onde não chove. | Mas o mundo, astronauta, é boa mesa | (E as bombas de napalme são brinquedos), | Onde come, brincando, só a fome, | Só a fome, astronauta, só a fome”.

A vivência das comunidades em estado de vulnerabilidade social apresenta algumas particularidades, a saber: 1) A simplificação da vivência social, sendo a busca existencial limitada às necessidades fisiológicas[6] – tornando uma utopia pouco admirável as lutas urbanas cunhadas pelo homo economicus[7]; 2) A segregação étnica e cultural, sendo empiricamente perceptível que a maioria dos que comungam da comunidade em estado de vulnerabilidade social são de cor negra – fomentando o imaginário racista[8] tupiniquim que vale-se das diferenças antropológicas como fator de opressão/escravidão racial/capitalista; e, por fim, 3) A ineficiência da educação formal, sendo esta descontextualizada e ininteligível para os marginalizados, adestrando-os academicamente – desnudando a educação informal como a acolhedora dos excluídos, reconstruindo as relações sociais[9] e relendo o homem a partir do saber reflexivo (práxis) e contemplativo (poético).

Faz-se necessário reavaliar as práticas socioeducacionais a partir do pressuposto de cidadania, solidariedade e amor – pilares da função poética e elementos subsistentes entre as comunidades pobres, como endossa BRANDÃO: “Ao falar de educação e de aprendizagem, escrevo falando do amor e da solidariedade. Ao pensar em cidadania, lembro a partilha e participação. Ao sugerir em nome do que, para quem e com quem destino de pessoa ou sociedade vale a pena reinventar o amor como fonte e destinatário da própria educação, sugiro também gestos interativos e ações sociais que o tornem um experiência concreta da vida (...) a educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas mudam o mundo” (BRANDÃO, 2005:25,31). Pelo exposto por BRANDÃO podemos ratificar que o processo de exclusão se inicia a partir do distanciamento fraterno que nutri a existência humana. Somente quando a educação se engordura entre as sociedades é que pode haver ensino relevante e contextual.

É de suma importância a análise da pobreza como fator de exclusão socioeducacional, pois a miséria é um estado provocado pela má aglomeração social. Desta perspectiva percebe-se a ineficiência do Capitalismo como fator de ascensão social, pois como afirma DEMO: “...os pobres excluídos aumentam, já não são funcionais ao sistema produtivo, vivem a angústia existencial da desqualificação etc (...) esperar que o capitalismo aceite assistir a todos os pobres é uma banalidade comprometedora (...) se os excluídos ameaçam a ordem social, não cabe vê-los como simplesmente ‘excluídos’; dialeticamente falando, fazem parte do sistema, mesmo que se sintam inúteis” (DEMO, 2002:4,6,30).

A perda da consciência sociológica (fraterna e poética) e, então, o inevitável destaque individualístico de alguns (leia-se, dos afortunados) corrobora para a sedimentação do conceito durkheimiano de solidariedade orgânica[10]. A linguagem poética pode ser um lampejo de esperança nesta inquietante desigualdade social. Através da perspectiva sociolingüística intrínseca a função poética pode-se conscientizar, confrontar e confortar. Na poesia pode-se contemplar a realidade social à volta e propor caminhos mais coloridos a partir de uma práxis artística. Na poesia pode-se desarmar os preconceitos culturais enraizados historicamente nas periferias e propor discussões contextualizadas com relevância social, educacionais e lingüística.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 20 de Novembro de 2013]



[1] O termo brasiliano foi muito difundido e popularizado na obra de ROQUETTE-PINTO (1884-1954) - médico, professor, escritor, antropólogo, etnólogo e ensaísta brasileiro. Ele escreveu, entre outras obras: Guia de antropologia (1915), Rondônia (1916), Seixos rolados Estudos brasileiros (1927), Ensaios de antropologia brasiliana (1933) e Ensaios brasilianos (1941). Qualquer estudo/pesquisa sobre a pobreza e seus impactos socioeducacionais devem se ater a clássica advertência de ROQUETTE-PINTO quanto aos índios: “nosso papel social deve ser simplesmente proteger, sem procurar dirigir, nem aproveitar essa gente” (ROQUETTE-PINTO, 1938:304).
[2] O termo mais-valia foi utilizado por Karl MARX (1818-1883) para demonstrar a injustiça/desigualdade capitalística de condicionar os trabalhadores a produzir excessivamente e estes não partilharem dos lucros deste labor – tal pressuposição é a base para o acumulo de capital, como Marx afirma: “a valorização do capital, isto é, apropriar-se de trabalho excedente, produzir mais-valia, lucro” (MARX, 1974:289).
[3] A utilização da expressão comunidades de excluídos se deve pelo fato deste grupo estar às margens da evolução acadêmica, distantes das manifestações culturais e por apresentar uma lentidão no processo de melhoria na qualidade de vida.
[4] DURKHEIM define fatos sociais, nos seguintes termos: “É fato social toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, (...) que é geral na extensão de uma sociedade dada, e, ao mesmo tempo, possui existência própria, independente de suas manifestações individuais” (DURKHEIM, 2007:13).
[5] O termo analfabetismo funcional refere-se àquelas pessoas que aprenderam a decodificar a linguagem escrita de forma muito rudimentar e, então, não conseguiram desenvolver a habilidade de interpretação de texto, tem dificuldades com leitura e construção de redação.
[6] Necessidades fisiológicas “são as necessidades vegetativas relacionadas à fome, ao sono, ao cansaço etc. Essas necessidades dizem respeito à sobrevivência do indivíduo e da espécie...” (OLIVEIRA, 2002:150).
[7] O termo homo economicus pode ser entendido com o máxima: “as pessoas estão interessadas em ganhos financeiros, pura e simplesmente” (CHIAVENATO, 2004:116). O termo foi criado no período do taylorismo (aproximadamente 1910), fruto final da Revolução Industrial, sendo confrontado posteriormente pelo conceito do homo social resultante da experiência de Hawthorne (aproximadamente 1930).
[8] “Os negros e pardos são 64 % dos pobres (...) O racismo deve ser pensado como resultado da conjunção entre a crise da modernidade e a dificuldade que esta possui de integrar a diferença” (GOMIDE, 2002:53).
[9] “A educação é parte da engrenagem social (...) a educação é função da sociedade” (CENDALES, 2006:13).
[10] DURKHEIM definiu a solidariedade orgânica em sua obra “Da Divisão do Trabalho Social” escrita em 1893. A solidariedade orgânica implica numa maior autonomia, com uma consciência individual mais livre. Ou seja: “ela liga diretamente as coisas às pessoas, mas não as pessoas entre si (...) ela não faz que as vontades se movam em direção a fins comuns, mas apenas que as coisas gravitem com ordem em torno das vontades (...) Longe de unir, elas só ocorrem para melhor separar o que está unido pela força das coisas, para restabelecer os limites que foram violados e recolocar cada um em sua esfera própria”  (DURKHEIM, 1999:91 e 94).

::Referências Bibliográficas::
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Aprender o amor: sobre um afeto que se aprende a viver. São Paulo: Papirus, 2005.
CENDALES, Lola; GERMÁN, Mariño. Educação Não-Formal e Educação Popular. São Paulo: Loyola, 2006.
CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração – Edição Compacta. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
DEMO, Pedro. Charme da Exclusão Social. 2. ed. São Paulo: Autores Associados, 2002.
DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
DURKHIEM, Émile. Da Divisão do Trabalho Social. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GOMIDE, Denise (org.). Racismo no Brasil. São Paulo: ABONG, 2002.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da Filosofia do Direito. 2. ed. São Paulo: Ícone, 1997.
LAPA, José Roberto do Amaral. Os Excluídos: Contribuição à História da Pobreza no Brasil. São Paulo: Editora da UniCamp, 2008.
LIMBERGER, Fabrício. Poemas Secretos. São Paulo: AGE, 2002.
MARTINS, José de Souza Martins. Exclusão Social e a Nova Desigualdade. 3. ed. São Paulo: Paulos, 1997.
MARX, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Sociologia das Organizações: Uma análise do homem e das empresas no ambiente competitivo. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.
ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia. 4. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.
SARAMAGO, José. Os Poemas Possíveis. Editorial Caminho, 1997.