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terça-feira, 21 de outubro de 2014

A infantilização do raciocínio nas universidades


“Criamos a época da velocidade, mas senti-mo-nos enclausurados dentro dela. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos”.
Charles Chaplin (1889-1977)

Os estudiosos da educação, especialmente no que se refere ao processo de concentração e cognição, defendem que na medida em que a pessoa vai crescendo sua capacidade de percepção/reflexão tende a expandir. Então, espera-se que a capacidade de concentração de uma criança de quatro anos seja mui diferente da de um adulto de 25 anos. Espera-se que uma criança de dois anos não tenha, ainda, condições de se interessar por assuntos complexos/conceituais, diferentemente de um adulto de 35 anos de idade. Espera-se que haja um amadurecimento gradual na medida em que a idade vai passando, e na medida em que vai se progredindo nas fases escolares. Espera-se que a capacidade de produção de texto, e a então capacidade crítica, seja desenvolvida ao longo do processo educacional. Espera-se que o aluno universitário seja mais interessado em aprender que um adolescente. Espera-se... e tão somente espera-se, pois a realidade tem desnudado um outro contexto (triste, vergonhoso e ascendente).

Nesta última década tenho trabalhado exclusivamente com a educação superior, e por puro (e conclusivo) empirismo afirmo que o nível dos alunos regrediu. O que tenho visto são verdadeiros “Benjamin Button” da educação – quanto mais envelhecem, mais se tornam crianças. Acredito que não estou sozinho nesta percepção. O professor Pierluigi Piazzi e o professor Sergio Cortella endossam está perspectiva (assista vídeos destes professores no YouTube). Os alunos estão chegando às universidades com menor capacidade crítica, com ausência de criatividade, com preguiça de pensar, com desdenho com a leitura, com morbidez na produção de texto, com déficit de respeito ao professor, com desprezo ao conhecimento e com carência emotiva. Este coquetel do mal tem tornado a sala de aula um lugar totalmente infantilizado.

O nível dos alunos piorou. Atualmente os alunos universitários não conseguem prestar atenção na aula (ou em estudos extraclasse) mais do que 15 minutos - equivalente à capacidade de concentração de uma criança no jardim de infância. Após este breve período os professores tem que valer-se de dinâmicas (nome pomposo para tornar lúdico o processo, comprovando a infantilização da educação superior). Os alunos são muito impacientes e tem muita dificuldade de completar uma tarefa - características de crianças de aproximadamente quatro anos de idade. Por isto, muitas atividades em classe ficam para casa (não é que não tenha tempo para fazer uma atividade, a verdade é que os alunos não estão tendo capacidade de fazer a atividade). Os alunos universitários não sabem lidar com conceitos abstratos (teorias/saberes), tudo têm que ser pragmático, visível, útil, imediato e concreto – atitudes estas que se assemelham a uma criança de seis anos de idade que ao se inserir no contexto escolar tem que começar a aprender a lidar com o abstrato (questões metafísicas, noções de tempo, espaço, pensamentos).

O nível dos alunos piorou. Atualmente os alunos da educação superior são facilmente irritáveis e terrivelmente emotivos – como crianças que não aceitam ser contrariadas. Assim ficam emburradas, fazem biquinhos e franzem a testa. Os alunos exigem respeito sem se darem ao respeito – irritam todos (especialmente ao professor), mas quando o irritam fica enraivecido e acha que é bullying, coisa de criança mimada que não tem noção de seus atos. Os alunos fazem da sala de aula uma sala de bate papo, onde silêncio é adjetivo raro – é tipo crianças que não conseguem ficar quietas, a não ser quando estão assistindo desenho da Peppa Pig. Os alunos estão indo para as faculdades para medir força bruta, se possível com o professor, com fins a desmoralizar estes educadores – são como adolescentes que por qualquer besteira querem brigar para se mostrar para os da sua gangue, a sala se tornou um octógono de MMA. Os alunos estão se desenvolvendo na técnica da fofoca conceitual, insistindo em falar mal de um professor para o outro professor, ou entre aluno-aluno – atitudes de características teen que denunciam a imaturidade destes novéis acadêmicos.

A educação superior no Brasil está sofrendo de um retrocesso intelectual e emocional, estamos presenciando uma infantilização da universidade. E a semelhança da técnica (senso-comum) para se matar sapos lentamente (coloque-o na água fresa e vai se esquentando gradativamente até o sapo morrer), estamos num caldeirão fervente, mas com sensação de água morna. De um lado os alunos se iludindo que estão aprendendo e não percebendo o quão infantis estão sendo. Do outro lado os professores que se renderam a esta nova condição de infantilização. O resultado é previsível: diplomas que não vale nada, conhecimentos desconexos, faculdade desmoralizada, saberes perdidos, professores cansados e donos de faculdades enriquecendo.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 21 de Outubro de 2014]

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Eu escolhi não votar


“O Estado é a organização económico-política da classe burguesa. O Estado é a classe burguesa na sua concreta força atual”.
Antonio Gramsci (1891-1937) 

A lenda mater que orbita no eixo do Sistema Governamental Brasileiro (independente de partido) é tentar convencer os tupiniquins que o voto obrigatório (e secreto) é o maior ato civilizatório e democrático que um cidadão pode ter. De fato isto ao fim, tristemente, se mostra como verdade, pois o único momento que nos travestimos de cidadãos é em épocas de eleições. Nos demais meses, em solos brasilianos, a cidadania é refém de direitos que são facilmente burlados, as ações comunitárias são financiadas partidariamente pelo Governo, os movimentos sociais se rendem ao poder, as escolas são enquadradas nas padronizações internacionais e os políticos alcançam foro privilegiado.

A eleição no Brasil, no formato e nas intencionalidades atuais, revela o quanto somos ultrapassados (leia-se manipulados). Todo o processo político brasileiro está desajustado frente à realidade contemporânea. Precisamos reaprender a politizar. Para tanto, primeiramente seria necessário desconfigurar a política como uma profissão (em termos lato sensu). O político seria um cidadão voluntário que quer lutar pelas causas sociais e coletivas. Para que isto se torne possível é preciso retirar o atrativo (abusivo) salário – até 1977 os vereadores no Brasil não eram remunerados. Tal prática é comum em vários países da Europa e Américas (México, França, Suíça, para citar alguns).

De todos os 181 países que integram a ONU (Organização das Nações Unidas), somente o Brasil remunera os vereadores. Estima-se que anualmente, no Brasil, o custo dos parlamentares, apenas referente a salários (fora benefícios intermináveis), é de aproximadamente R$ 11 bilhões de reais. Enquanto ser político for altamente atrativo no quesito financeiro não restará espaço para gente boa se interessar pelo assunto social-coletivo, pois estes serão sufocados pelos gananciosos cidadãos que fazem da política um forma de se enriquecer rapidamente (leia-se desvio de verbas). Uma ajuda de custo seria o suficiente para as despesas deste cidadão-político que representa os outros. Política tem que ser vocação, não profissão.

Uma segunda desorientação que se faz necessário é que o voto não seja obrigatório. Há várias pesquisas que tem comprovado que as pessoas votam porque são obrigadas, do contrário não se achegaria a este bacanal tupiniquim. A Folha de São Paulo publicou recentemente (11/05/2014) que 61% dos brasileiros são contra a imposição do voto. Se votar fosse, então, nosso ato sublime de cidadania, como propõem o Governo, deveria ser respeitado o direito de não querem votar – ainda mais sabendo que a maioria dos brasileiros não concorda com tal medida. Os que defendem o voto obrigatório são dois tipos: a) os que foram contaminados com a ilusão de que votar é um ato de democracia – estes apenas reproduzem o discurso do Governo; e, 2) os que vão se beneficiar com a eleição de outrem – este votam não por causa das propostas, mas sim pela barganha (vulgarmente: “mamar nas tetas do governo”).

Outra desorientação (terceira) que precisamos levar em consideração é que o voto não pode ser secreto. Se é democrático, não justifica ser secreto. Se supostamente fora feito por livre espontânea vontade, não carece de se esconder a escolha. Alguns poderiam argumentar que é secreto para proteger as pessoas. Entretanto, se precisa proteger, então, denuncia que há algo de errado no processo (existe um opressor). O voto precisava ser aberto, para que democraticamente pudéssemos ser avaliados e avaliar a partir de nossas escolhas. O voto secreto só favorece os corruptos que se valem do anonimato para se privilegiarem ou manipularem os indefesos cidadãos.

Há ainda mais desorientações que necessitam serem postuladas (quarta). Para que as eleições sejam de fato um ato democrático é preciso que se ultrapasse o dia da votação. É preciso criar uma forma de a população intervir/acompanhar os políticos durante o mandato e, se quiserem, terem o direito de retirar o voto dado há um determinado político. Isto sim seria cidadania e democracia. Contudo, novamente alguém poderia argumentar que isto instauraria o caos, provocando várias mudanças em pouco tempo, impedindo a continuidade das ações governamentais. Entretanto, se o povo se arrepende do voto em pouco tempo, então, nada mais democrático que permitir a alteração. E mais, a falácia da possível descontinuidade de projetos/ações não aconteceria por causa da mudança de políticos, pois tal descontinuidade já acontece nos mandatos normais, inclusive nas reeleições.

A quinta desorientação que aqui proponho é que seja feita uma reformulação total na forma de eleições no Brasil ao ponto de não precisarmos votar em pessoas, mas em projetos. Não entenda que há alguma resistência a pessoa enquanto gente. De forma alguma. Contudo, desta forma, eliminaríamos os coronéis-políticos que se sentam nos tronos da nação e usam a máquina governamental para continuarem suas monarquias eleitas. Além do que, se as eleições fossem tipo um licitação aberta, evitaríamos ter a necessidade de partidos políticos, que nos últimos anos só polarizaram cegamente as discussões políticas e dividiram passionalmente ainda mais a nação. Não precisamos de partidos políticos e não precisamos de pessoas (coronéis-carismáticos), o que precisamos é de projetos de gente da gente, de cidadãos que vivem as realidades brasilianas. Assim conseguiríamos ter ações direcionadas, específicas, desburocratizadas e desmonetizadas.

Por fim, uma última (sexta) desorientação que me permito propor é que se democratize o horário eleitoral gratuito que se encena na televisão. Não é nada democrático um candidato ter 15 minutos para expor seus cantos da sereia, enquanto outro tenho 2 minutos para expor suas cantigas. Se é para democratizar, que então comecemos pelo horário eleitoral gratuito, dispondo igualmente os tempos. E vou mais além, que haja as mesmas condições de produção de propaganda eleitoral, não é nada democrático um candidato ter recursos para contratar a melhor equipe de marketing e ou outro candidato ter que fazer seu programa com câmeras amadoras – isto é desleal, injusto e antidemocrático, além de não ser sincero com os cidadãos que ficam sempre a assistir.

Eu escolhi não votar, pelo menos não conforme os padrões do moderno-arcaico Brasil, mas não tinha esta opção para mim. Afinal, de fato, tenho que contentar toda a minha cidadania e democratização numa eleição. Minimizando minha participação pública num clique de urna. Ridicularizando minha racionalidade na escolha de políticos. Tristemente, somos todos obrigados a escolher alguém, mesmo que não se tenha alguém competente. No meu imaginário apolítico não vejo perspectiva de redenção na política brasileira, estamos contaminados com um vírus que já faz parte de nosso DNA, somos indivisíveis com nosso câncer. Portanto, me rendo, relutantemente, ao convite da auto-gestão – quem sabe assim poderemos encontrar uma vida mais simples, solidária e descapitalizada.

Ps.: tudo isto são delírios utópicos de um cidadão que se cansou da patifaria da política brasileira.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 02 de Outubro de 2014]

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Mudando as mudanças


"Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado”.
Clarice Lispector (1920 – 1977)

O extremismo humano é uma característica assustadora que, ironicamente, cada vez mais tem caracterizado a modernidade tardia. A falta de equilíbrio e a ausência de fundamentação (enraizamento) têm conduzido incontáveis pessoas a viverem inúmeras crises de identidade, ou pelo menos denuncia uma busca por identidades. Categoricamente pode-se ponderar que alguns vivem no comodismo, outros no modismo e ainda existem alguns que se constroem a partir dos alicerces no mudancismo (neologismo apropriado para conceituar os apaixonados por mudanças - de qualquer gênero, razão ou por pura diversão). Os adeptos ao mudancismo são aqueles que mudam tanto que sempre acabam voltando para o mesmo lugar - mesmo que não percebam e não queiram.

As mudanças fazem parte da jornada de qualquer um. As mudanças são necessárias. Entretanto, é válido arrazoar que tanto o viver acomodado quanto o orbitar irracionalmente na arte de sempre mudar são raízes do mesmo mau, quase sempre caracteriza apenas como um modismo temporal. Então, percebe-se notoriamente uma guerra político-teórica-praxiológica entre ambos, disputando algo que jamais pertencerá a nenhum dos dois grupos. Busca-se a singularidade, mas se todos fazem, perde-se. Procura-se originalidade, mas se é influenciado por outrem, confunde-se. Necessita-se de identidade, mas somos seres inconclusivos, muda-se. Por esta razão, tomar uma decisão, ainda que conscientemente errada, só para diferenciar dos demais é aderir ao movimento do mudancismo.

É preciso caminhar mudando as mudanças para não viver acomodado com as mudanças. Mesmo que ainda o que reste é incorporar o estado de “agentes de mudanças”, como que num soluço existencial tateando superar a crise de identidade e/ou a carência afetiva (e efetiva). Portanto, mudar não deve fundamentar a vida. Contudo, faz-se necessário fundamentar as mudanças da vida – mesmo sabendo que há uma incompletude de saber o que a nós acontece. É impreterível que imerja-se nas mudanças a partir de um por que, mesmo que não se tenha um porquê. Seguir mudando sempre é acomodar-se com as mudanças, e sendo assim perde-se a bela singeleza das mutações tão altivamente defendidas. Ao acostumar-se em nunca ser corriqueiro percebe-se, um dia desses, que sutilmente apenas aderiu-se a rotina de não ter rotinas – mudancismou-se a si mesmo.

Nunca entenderemos efetivamente o valor das mudanças com as quais aderimos tão calorosamente, porém uma coisa é intransponível por nossa ignorância: não conseguimos ser os mesmos mais que um milésimo de segundo consecutivo. Então, mudar é natural e inerente a vida, não precisamos forçar os tempos, acreditando sermos construtores de nossas próprias histórias inéditas. Reconheçamos que somos tipo uma jangada existencial num incerto mar enfurecido. Sendo assim, mudanças virão (e que sabe até alguns viram), não precisamos aderir ao mudancismo para reafirmar nossa autonomia antropológica. Somos seres mudáveis por definição.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 15 de Junho de 2005]

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O percurso teórico-metodológico de Karl Marx na obra “O Capital”


"O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido".
Antonio Gramsci (1891 - 1937)

Karl Heinrich Marx era filho de Hierschel Marx e Henrietta, era casado com Jenny von Westphalen. Marx nasceu em 05 de Maio de 1818, em Tréveris, Alemanha. Em 1835 Marx ingressou na Universidade de Bonn, na Alemanha, para estudar Direito. Posteriormente se transferiu para a Universidade de Berlim, também na Alemanha. Doutorou-se em 1841 com uma tese sobre as diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro. Logo no início de sua trajetória intelectual propôs um caminho que tentasse combinar o materialismo de Ludwing Feurbach com a dialética de Hegel.

Marx, em 1842, se tornou redator-chefe da Gazeta Renana (Renânia, região do oeste da Alemanha). Contudo, devido a Revolução de 1848, Karl Marx é forçado a abandonar o jornalismo na Alemanha, mudando-se para a Inglaterra. As suas principais idéias e investigação foram, entre outras: modo de produção, mais-valia, acumulação primitiva, alienação, materialismo histórico, ideologia, luta de classes, materialismo dialético. É válido ressaltar conforme SAVIANI, LOMBARDI, SANFELICE (2006, p.53): "A partir de 1843 até seus últimos textos que são de 1879, 80 – nos últimos três anos Marx não produziu nada, na verdade a partir de 1875 se registra uma curva decrescente da sua produtividade – a partir de 43, há uma unidade na obra marxiana. E essa unidade é dada pelo objeto de investigação. Que objeto é este? A gênese do desenvolvimento e as possibilidades de crise da ordem burguesa. Esse é o objeto de Marx".

Karl Marx veio a falecer em 14 de Março de 1883, em Londres, Inglaterra. Contudo, seu legado histórico e bibliográfico influenciaram fortemente grandes escritores posteriores, a saber: György Lukács, Jean-Paul Sartre, Antonio Gramsci, Leon Trótski, Karl Kautsky, entre outros.

As principais obras de Karl Marx são: Para a crítica da economia política (Título original: Zur Kritik der Politschen Ökonomie - Ano: 1859), População, crime e pauperismo (Título original: Population, crime and pauperism - Ano: 1859), Salário, preço e lucro (Título original: Value, Price and Profit - Ano: 1865), O Capital: crítica da economia política - Livro I: O processo de produção do capital (Título original: Das Kapital: Kritik der politschen Ökonomie - Erster Band: Der Produktion Prozess des Kapitals - Ano: 1867) [Nos anos seguintes, até a morte de Marx, ele se dedicou a escrever os outros volumes d'O Capital, que foram publicados postumamente por Engels], Crítica do Programa de Gotha (Título original: Kritik des Gothaer Programms - Ano: 1875).

A vida e obra de Karl Marx, apesar de ser complexa por ocasião dos temas por ele abordados, não é de todo “difícil”, pois como afirma GRESPAN (2008, p. 08): “Marx queria ser entendido”. E, acrescenta: “fazia parte de sua [Marx] teoria que ela pudesse cooperar na transformação das condições da sociedade capitalista” – destaque do autor. Por esta razão, Marx empenhou sua vida para demonstrar que o Capitalismo é um sistema autodestrutivo, posição esta encarnada de forma tão radical em seus escritos que, contemporaneamente, NÓVOA (2007) rendeu-lhe o título de: “Incontornável Marx”.

Baseado nas obras publicadas de Marx pode-se asseverar que a metodologia que ele usa perpassa a percepção de que a sociedade só pode ser compreendida a partir das bases materiais e econômicas. Por isto, SAVIANI, LOMBARDI, SANFELICE (2006, p.57) consideram: "para ele [Marx] o conhecimento teórico é necessariamente conhecimento político. A determinação essencial é que a crítica das condições da produção da vida material é somente o ponto de partida para a reprodução teórica do movimento social". – destaque do autor.

Seguindo esta perspectiva, pode-se compreender a sociedade com base na constituição econômica da mesma, que fora chamada por Marx de infraestrutura – que é toda parte material da sociedade e suas relações materiais/mercantis advindas do processo de troca. Por esta razão, o método de Marx fora denominado de Materialismo Histórico-Dialético, que é um método de interpretação e cosmovisão da realidade a partir das implicações da práxis, isto é, da articulação da prática à teoria e da teoria à prática. Sendo que tal percepção é desenvolvida através de abstrações do pensamento e da atividade prática. Como afirma SAVIANI, LOMBARDI, SANFELICE (2006, p.56): "para Marx, a verdade é a coincidência, o encaixe, digamos assim, de uma representação teórica com um objeto que antecede, objeto não necessariamente material. O que distingue Marx dessa linha de continuidade é que o critério de verdade para ele não é um critério da consciência solipsista; é a prática social que aparece como critério de verdade. A questão da teoria, ou mais exatamente, da reprodução ideal do movimento real, remete diretamente à questão do método".

O método Materialista Histórico-Dialético tem como principal adjetivo o movimento do pensamento que perpassa pela materialidade histórica da vivência coletiva em sociedade. Dai a aceitação do princípio da contradição, que parte do estado empírico, passa pelo abstrato e se mostra visivelmente no concreto. Por esta razão assevera ALCÂNTARA (2007, p. 61): "A dialética marxiana é uma herança direta da visão hegeliana acerca da história. A diferença é que, como o próprio Marx afirma, ele realiza uma inversão da espiral hegeliana. Ao falar em dialética Hegel buscava estabelecer a idéia de que o movimento da consciência não é estável e seguro, mas sim contraditório e conflituoso, tal com é a própria realidade. Então o desenvolvimento histórico aconteceria com base em três momentos distintos que se sobreporiam, sendo eles, negação, conservação e síntese. Marx rompeu com o idealismo hegeliano, mas manteve a premissa de acordo com a qual a realidade firma-se sobre um contexto extremamente complexo, o qual contém elementos que ao entrarem em contradição promoveriam o desenvolvimento histórico e a mudança social de fato (...) A dialética, então, representaria a contradição e o conflito existentes na realidade social..."

A construção do termo Materialismo Histórico-Dialético, pode ser explicado da seguinte maneira: 1) Materialismo, pois para esta concepção filosófica a realidade tem como única causalidade a material, ou seja, a realidade existe independente da vontade ou consciência do homem. Desta maneira a realidade não está contida num idealismo, nem no mundo das idéias metafóricas e/ou metafisicas. 2) Histórico, pois a realidade não é linear, isto permite a historicidade (evolução e construção) de um modo de produção que ocorre a partir do desenvolvimento das forças produtivas e das lutas entre as classes em cada período histórico. E, 3) Dialético, pois a realidade é composta pelo meio e pelo sujeito, e há uma reciprocidade entre este dois elementos, que se dialogam e se contradizem durante toda a existência produzindo transformações históricas “inacabadas” (mutáveis).

Como acrescenta KONDER (2006, p. 85): "(...) era porque a história se caracterizava como um processo contraditório de autorealização e desrealização prática do ser humano, um processo que englobava toda a realidade dos homens, que se tornava imperioso examinar criticamente o presente como história. E era porque, segundo a nova concepção materialista da história, o conflito entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação capitalista se tornara o centro da história contemporânea, que passava a ser absolutamente necessário escrever O Capital".

O tradutor Gabriel Deville, no prefácio a tradução d’O Capital (versão condessada, publicada pela Editora EDIPRO, 2008), explica sobre a metodologia marxista ponderando que: "...estudo dos fenômenos sociais, baseando-se na única concepção real: na concepção materialista. Não preconizou um sistema mais ou menos perfeito do ponto de vista subjetivo: examinou escrupulosamente as causas, agrupando os resultados das suas investigações e tirando delas conclusão, que tem sido a explicação científica da marcha histórica da Humanidade, e em particular do período capitalista que atravessamos. A história, afirmou Marx, é apenas uma história da guerra de classes".

A obra O Capital foi publicada em setembro de 1867 (apenas o Volume I ou Livro I), os dois outros Volumes (Livros) foram publicados por Friedrich Engels após a morte de Karl Marx. Estruturalmente a obra final ficou disposto da seguinte maneira: Livro 1 - o processo de produção do capital, 1867; Livro 2 - o processo de circulação do capital, 1885; Livro 3 - o processo global da produção capitalista, 1894. Karl Kautsky, após a morte de Engels, publica o Livro 4 - Teorias da mais-valia, 1905. Tempos depois, em Frankfurt, 1969, fora publicado o Capítulo VI inédito de O Capital, texto aparentemente excluído por Marx do Volume I.

A divisão temática d’O Capital (em três tomos) pode ser feita da seguinte maneira: Volume 1: O processo de produção do capital (Mercadoria e dinheiro, Transformação do dinheiro em capital, Mais-valia absoluta e relativa, Salário e Processo de acumulação. Volume 2: Processo de circulação do capital. Volume 3: Processo global da produção capitalista (Lucro e taxa de lucro, Capital comercial, Juros e crédito, Renda da terra, Revenues [rendimentos ou receita]).

Para fins didáticos serão pinçado apenas alguns temas dentro do escopo d’O Capital com fins de comprovação da coerência teórico-metodológica empregada por Marx. Para tanto, iniciaremos a análise do percurso pelo Capítulo I, sob o título “A Mercadoria”, onde Karl Marx (1983, p.45) de imediato explica as bases embrionárias do que será investigado: "A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma imensa coleção de mercadorias e a mercadoria individual como sua forma elementar. Nossa investigação começa, portanto, com a análise da mercadoria. A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie".

Na perspectiva de Marx a mercadoria é a célula básica de uma sociedade capitalista. Isto se dá, pois a mercadoria é o elemento mais visível do Sistema do Capital. Sendo que a partir desta visibilidade se cria o relacionamento das pessoas com a mercadoria, estabelecendo contato direto com o Capitalismo. Tendo em vista que todos, nesta Sociedade do Capital, têm contato com a mercadoria, quer seja vendendo a força de trabalho, quer seja comprando força de trabalho.

A mercadoria representa um valor referente a uma quantidade de trabalho humano, sendo o valor de uso representação do quanto a mercadoria satisfaz uma necessidade humana ou desejo. E a partir destas representações se dá o valor de troca, que é quando uma mercadoria é trocada por outras mercadorias. O preço dado na relação de troca é a expressão monetária do valor de troca. Sendo que o valor de troca da mercadoria está correlacionado com a intensidade da força de trabalho empregado na mesma.

Marx quis mostrar que a relação visível que as pessoas têm com a mercadoria é um processo de alienação, o que produz um fetiche, como pondera MEKSENAS (2005, p. 83,84): "Somos levados a pensar que as mercadorias têm qualidades próprias, que o dinheiro possui um poder de compra que é mágico. Isto se deve ao fato de que, no processo de troca, as mercadorias se equivalem fazendo com que o valor não apareça aos nossos olhos, dando a impressão de que o valor de troca não seja manifestação do valor e sim a manifestação das leis de oferta e procura. Essa inversão de sentidos, Marx denominou de fetiche das mercadorias, e consiste basicamente em dar a impressão de que as relações sociais de trabalho são apenas relações sociais entre mercadorias".

A mercadoria no Sistema Capitalista também pode agregar o processo de reificação (LUCKÁS, 1989) ou coisificação, que é quando o próprio trabalhador se transforma em mercadoria Por isto, WHEEN (2007, p. 20) afirma: "Aqui, ainda embrionária, está a idéia básica do Capital. Por mais gloriosos que pareçam os triunfos econômicos, o capitalismo permanece um desastre, uma vez que transforma as pessoas em mercadorias intercambiáveis por outras mercadorias. Até que os homens possam se afirmar como sujeitos da história, e não como objetos, não há modo de escapar a essa tirania".

O termo alienação fora largamente difundido por Karl Marx, especialmente na obra O Capital, demonstrando que a alienação se dá tanto no processo de troca das mercadorias, quanto no processo produtivo propriamente dito, impedindo que os seres humanos sejam efetivamente livres (SINGER, 1980). As fontes propostas por Karl Marx sobre alienação foram resultados das leituras sobre Hegel. Para ambos teóricos, a alienação está condicionada ao trabalho, porém Marx sugere que o trabalho ao invés de realizar as pessoas, faz o contrário, as escravizam (exploração). Sendo assim o trabalho não humaniza os envolvidos no processo produtivo, mas sim os desumanizam e desconstroem suas percepções sociais.

Para Marx a alienação econômica se dá de duas maneiras: 1) atividade fragmentada – que desfigura (despersonifica) o trabalhador por meio da divisão do trabalho especializado perdendo a noção do trabalho total exercido coletivamente; e, 2) produto apropriado por outros – o trabalhador tem a riqueza gerada pelo seu próprio trabalho tomada pelos donos do capital, pelo que fora chamado de trabalho pago e trabalho não pago, sendo assim o trabalhador perde a capacidade de reconhecer o produto de seu trabalho, o que favorece a exploração (mais-valia).

O termo fetichismo proposto por Marx evoca a idéia de ressignificação do objeto ou mercadoria. Acontece quando o referido objeto/mercadoria torna-se representação de algo distinto do real. Marx observou que o valor dos produtos no mercado não dependia do esforço-trabalho empreendido, nem do material gasto para a produção, mas sim pelo valor social agregado a este. Para exemplificar isto Marx (1975) vale-se do relato bíblico sobre Moisés no Monte Sinai que após ir buscar orientação sobre como conduzir os judeus pelo deserto percebe que o povo se reorganizou e construiu um bezerro com o ouro que tinham para ser objeto de adoração. Este processo de “veneração” da mercadoria (HOLANDA, 1995) é que Marx chamou de fetichismo – que acontece quando as pessoas perdem a noção do que (e em que) acreditar (real).

Ao perpassar por estes tópicos d’O Capital, como fora exposto nesta seção, fica notório que Marx teve coerência teórico-metodológica, segundo os postulados do Materialismo Histórico-Dialético. Isto pode ser comprovado, pois para esta matriz do conhecimento a existência se reconhece a partir de uma realidade social que impreterivelmente é histórica, portanto em constante movimento de contradição (mudança, dialética). Sendo assim o marxismo ganhou destaque por fazer críticas ao positivismo, pois a dialética marxista questiona a estagnação da realidade e a figuração da mercadoria (material) nas relações. Como acrescenta GRESPAN (2008, p. 09, 82): "A dialética reproduz o movimento contraditório pelo qual algo se apresenta como o inverso do que é (...) a dialética revelaria que, por trás da aparente diversidade das coisas, se oculta o oposto (...) a dialética tem função crítica de revelar a desigualdade social na base da igualdade de todos... [a teoria de Marx é] adequada ao mundo contraditório e mutante que é seu objetivo, a teoria de Marx possui plasticidade que o mantém vivo, a despeito de ter a sua morte tantas vezes decretada".

Karl Marx foi um dos grandes pensadores do século XIX capaz de perceber o ciclo contraditório da vida capitalista e suas relações de troca. E foi a partir destas percepções que Marx propôs O Capital, sendo uma de suas obras de maior destaque até a contemporaneidade, um verdadeiro Magnum Opus. Para construir o trajeto metodológico de sua investigação/comprovação, Karl Marx valeu-se do que ficou conhecido como Materialismo Histórico-Dialético, corrente filosófica que admite a historicidade da realidade a partir de ciclos não lineares, ponderando sobre suas contradições essenciais e existenciais.

A obra O Capital merece destaque por tracejar a realidade social capitalista e desnudar a derrocada do Capitalismo por ocasião do seu inerente desiquilíbrio lógico. O acúmulo de capital, a exploração do trabalhador assalariado, o processo de troca das mercadorias, a alienação econômica, o mais-valia e o fetichismo são alguns destes sintomas que denunciam contra a sustentabilidade econômica e social do Capitalismo.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 30 de Agosto de 2014]


::Referências Bibliográficas::
GRESPAN, Jorge. Marx. São Paulo: Publifolha, 2008.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
KONDER, Leandro. O futuro da filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
LUCKÁS, Georg. História e consciência de classe. Rio de Janeiro: Elfos, 1923.
MARX, Karl. O Capital. Tradução e condensação de Gabriel Deville. 3 ed. Bauru, SP: EDIPRO, 2008.
MARX, Karl. O Capital. V. I, tomo 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
MARX, Karl. Capítulo inédito d’O Capital: resultados do processo de produção imediato. Porto: Escorpião, 1975.
MEKSENAS, Paulo. Aprendendo Sociologia – a paixão de conhecer a vida. 9 ed. São Paulo, SP: Edições Loyola, 2005.
NÓVOA, Jorge (org). Incontornável Marx. Salvador: EDUFBA, 2007.
SAVIANI, Dermeval; LOMBARDI, José Claudinei; SANFELICE, José Luís (orgs). História e história da educação. 3 ed. Campinas, SP: Autores Associados: HISTEDBR, 2006.
SINGER, Peter. Marx. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
WHEEN, Francis. O Capital de Marx: uma biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.