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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O desafio da inutilidade


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Clarice Lispector (1920-1977) 

Ser útil é muito cansativo! Não sobra tempo para perder, não resta opções sem resultados, não há espaço para desinteressar-se, não carece de quietude. Ser útil é confundir-se com que se faz. É ser julgado pelo que se produz. É caminhar sempre em frente. Ser útil é muito chato! Descobrir-se útil é emaranharem-se numa teia horrenda de interesses, trocas e desgastes. O útil é interessante, pois sempre tem algo a oferecer para outrem, sempre tem um conselho motivador, sempre está pronto para o que quer que precise, sempre tem que estar “lá”. Ser útil é uma futilidade! O útil não vê utilidade em cultivar flores, apenas quer árvores frutificas, pois estas lhe dão retorno. O útil não vê utilidade em andar a pé, apenas quer se locomover rápido, pois o que lhe interessa é chegar logo “lá” e rapidamente ir para outro lugar “lá longe”. O útil não consegue criar identidade, pois não passa tempo suficiente “lá”.

No cenário contemporâneo, infelizmente, as nossas relações se dão pela capacidade de utilidade das pessoas. Tristemente, somos amigos daqueles que podem nos oferecer algo. Dificilmente teremos amigos inúteis, pois afinal estes não servem para nada. Estranhamente, amigos tem que ser úteis, tem que produzir algo, tem que oferecer alguma coisa, tem que ter relevância. Neste contexto de utilidades não resta espaço para amigos deficientes físicos ou mentais, pois estes têm pouco a oferecer de útil frente aos padrões de sucesso moderno. Quase não temos amigos crianças, pois igualmente estes são infantis, e não temos tempo a perder com coisas de crianças. Poucos são os que têm amigos velhos, pois estes já não tem mais vigor para produzir algo. Portanto, para o que tornamos, os amigos tem que ser úteis.

Ao findar um filme queremos entender a relevância da história ali contada, como se tudo na vida tivesse que ter sentido ou tivesse que ter finais lógicos e meritocráticos. Filmes “sem finais” nos deixam inquietos e frustrados, pois queremos sempre que as coisas cheguem há algum lugar, e saber que nem sempre no fim as coisas dão certo, ou que às vezes nem se tem um fim, produz desordem mental e emocional às nossas vidas úteis. Não suportamos o estado de inconclusão, de não obviedade, de contemplação, de suspensão. Nos tornamos úteis demais para suportar o inacabado. Nos tornamos úteis demais para tolerar a inutilidade de qualquer coisa. Nos tornamos úteis demais para perceber os detalhes de uma história. Nos tornamos úteis demais para entender aquilo que precisa de sensibilidade. Nos tornamos úteis demais para não entender algo.

Enfim, quero redescobrir minha grande inutilidade, e então, reaprender a viver!

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 12 de Agosto de 2015]

terça-feira, 28 de julho de 2015

Educação adestrada


“É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade”.
Immanuel Kant (1724-1804)

O período de escolarização poderia ser provocativo, inquietante e desconcertante. Gerar pessoas que questionassem o ciclo normal da existência. Favorecer o florescer de gente inconformada com a macha atual. A escola até poderia ser um terreno fértil para o germinar de percepções diferente acerca das normoses existentes. A escola poderia... não fosse sua real intenção de formatação para adequação da aceitação social, como propõem Emile Durkheim; Não fosse a escola uma estrutura de reprodução das intenções da classe dominante, como propõem Antônio Gramsci; e não fosse a escola um produtor de exercito de reserva para atender os donos do capital, como propõem Karl Marx. A escola poderia... não fosse a educação um germe adestrado como se está.

A educação precisa ser liberta, liberta de nós mesmos, de nossos ideais corruptos e tendenciosos. A educação precisa se libertar dos grilhões de nossa humanização. Contudo, é preciso reconhecer que a educação jamais conseguirá se ver livre de nossa integração humana, alias, educar é um processo de humanização por si só. Entretanto, quem sabe, um dia conseguiremos desfrutar de uma educação mais irreverente, capaz de desrespeitar os ditames ortodoxais ai expostos. Discordar não para se opor, mas sim para desvelar, criticar, desnudar, duvidar e questionar. A educação precisa ser uma enxada que desbrava nossas ignorâncias e remexe nossas convicções, preparando a boa terra para um novo plantio.

A educação está adestrada, e o que denuncia tal atrocidade é a perda de três pilares: 1) Interatividade – enquanto a educação se manter como um monólogo de professores, então, não haverá espaço para aprendizagem. O professor é um importante agente, contudo, é preciso mais integração com os alunos para que a educação se torne provocativa na realidade social de todos. 2) Continuidade – enquanto a educação continuar desconexa de um rumo para além das disciplinas anuais ou semestrais, então, o conhecimento terá um curto prazo de perecividade. A educação precisa superar a escolarização. 3) Intencionalidade – enquanto a educação estiver rendida a sistemas avaliativos, então, o proposito será igualmente, apenas, avaliativo e correspondente ao período de escolarização. É necessário que o saber seja mais valorizado que a obtenção de notas.

A educação está adestrada, pois é conveniente que ela esteja assim. Os professores não gostam de alunos que pensam, pois sendo assim estes os fazem estudar/preparar aula; Os alunos não querem professores que pensam, pois estes se tornam muito exigentes em sala; A direção não quer alunos e professores pensantes, pois neste caso, ambos produzem muitos problemas acadêmicos para serem resolvidos; A sociedade não quer uma escola pensante, pois deste modo é mais fácil (e mensurável) ditar o que é sucesso e fracasso. Por tudo isto, caso não haja um desarranjo no cenário atual, em vão discursaremos na planaria da vida.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 28 de Julho de 2015]

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Pequeno soluço de vivência

"Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação de meus desejos afligidos".
Cecília Meireles (1901-1964)

O espelho da existência reflete a história de vidas que o tempo não pode apagar. É perscrutar o íntimo daquilo que outrora fora e contemplar o futuro que um dia será. Com certeza, isto nos faz repensar sobre as palavras que se tem escrito na autobiografia da vivência. Sendo assim, a vida é feita de decisões, onde erros e acertos são duas faces de uma mesma moeda. Ao final, as lagrimas que rolam no rosto sofrido encontram nos lábios o sorriso perdido.

Ousar viver é redescobrir em cada manhã a oportunidade de chegar mais alto. É aventurar-se na selva das vivências e decodificar o mapa do tesouro de se estar vivo. É atrever-se há decifrar o tempo e ser protagonista da comédia chamada vida. De nada adianta construir casulos na tentativa de se proteger dos perigos de se estar vivo. Estar vivo é o maior risco que há.

A classe educacional chamada vida é definitivamente uma grande comédia. Por esta razão, os problemas do passado algumas vezes são as soluções do futuro. Os erros do pretérito, às vezes, se tornam em uma agradável rotina do presente. Os absurdos que aconteceram ontem podem se tornar normal amanhã. Por isto, é sábio olhar para trás, e avaliar a tortuosidade de nossas pegadas.

Desde o amanhecer até o sol se pôr, a escola da vida está de portas abertas para ensinar lições que o tempo insiste em não esquecer. Os anos passam, e, então, revelam os maiores paradoxos da existência humana: coragem e estupidez, ousadia e covardia, força e fraqueza. E é neste hilário abismo existencial do contraditório que se perceber que na jornada da vida os contra-sensos caminham de mãos dadas. Bem vindo à vida...

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 05 de Agosto de 2004]

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O que nos falta é criatividade


“O maior inimigo da criatividade é o bom senso...”.
Pablo Picasso (1881-1973) 

O rumo para o qual estamos indo é sabido. Todos estão indo pra lá. Uma odisseia sem muita diversidade, sem muita identidade, sem muita intencionalidade e sem muita criatividade. Estamos indo, seguindo a maré. Sendo governados pela sonoridade da mídia que teatraliza e uniformiza a todos, nos tornando reféns de nossas próprias histórias. Há até uns discursos destoantes, mas, às vezes, parece que até isto é intencionalmente previsível. Tentam, convictamente, mostrar que o diferente é disforme, esquizofrênico, maléfico, alucinógeno, e coisas do gênero. Querem que acreditemos que ser distinto é uma esquisitice intolerável frente aos fracassados padrões desta sociedade do sucesso visível.

O principal sustentáculo de toda esta carência criativa é a culpabilidade, do outro, claro. Há de se culpar alguma coisa, alguém, algum passado, e quem sabe até o preconizar a culpa do futuro. Culpam a falta de recursos financeiros, e assim, se sujeitam a não conseguirem chegar para além da medíocre linha do sucesso empresarial. Culpam o governo pelas faltas sociais, e assim, encantam a si mesmos com enfadonhos discursos sobre a intangibilidade humanitária. Culpam os opressores do passado, e assim, encontram a grande desculpa para se acomodar no deleite do fracasso justificável. Culpam algumas pessoas por qualquer coisa, e assim, se escondem no revigorante vale das deliciosas acusações.

É preciso ir além. Até na arte de culpar é preciso que haja mais criatividade, pois estes discursos já caducaram. Não convencem mais. Apesar de ainda serem muito funcionais entre os romeiros da igualdade – por isto, repetir o que já foi dito é confortante, cumprimentar o outro com um pergunta que nunca tem resposta é amigável, descrever o óbvio com eloquência é admirável e escrever muito sobre o que todos sabem é enriquecedor. É preciso reinventar o que estamos fazendo! É preciso dizer verdades com um pouco mais de mentiras e, quem sabe, conseguir mentir com um pouco mais de verdade (verdades aqui representam nossas convicções mais concretas, e mentiras aqui representam nossas convictas incertezas, que geralmente as ridicularizamos).

A criatividade permite gangorrear, perder, arriscar, não saber, contemplar, chorar, enlutar, indagar, silenciar, desdomesticar, desadestrar, desmecanizar, despir... enfim, as pessoas criativas sabem que tristeza não significa estar triste, nem alegria significa estar alegre. Sabem que estar vivo não significa estar respirando, nem morrer significa estar enterrado. Pessoas criativas rompem o cativeiro das categorias. Rompem o estereótipo. Superam os estigmas. Por isto, precisamos de mais criatividade. Precisamos de cantores mais desafinados, de escritores mais analfabetos, de artistas mais despreparados, de professores com mais dúvidas, de carteiros sem endereços, de dançarinos sem música, de palhaços sem maquiagens, de repórteres sem notícias. Precisamos de pessoas desrotularizadas. Para que haja criatividade precisamos de liberdade. Liberdade de fazer feio, de não ser aceito, de contradizer. Liberdade de criar...

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 16 de Junho de 2015]