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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Administração - possibilidades de redefinição social


"Desenvolva as pessoas e elas desenvolverão a Organização”.
Idalberto Chiavenato (1936-  ) 

Administração não é uma atividade restrita ao campo empresarial, está presente em outros setores da economia como Administração pública e Administração de instituições sem fins lucrativos. Há de se considerar também que a noção de administração não se dá num cativeiro econômico, mas extrapola tais delimitadores hierárquicos e traz consigo implicações coletivas, sociais e históricas. Gerar lucro é apenas uma das inúmeras possibilidades em decorrência de ser administrador, não é a única, e para muitos casos nem é a principal.

Administrador(a) não é um funcionário(a) com melhor remuneração ou com melhor posição hierárquica, nestes casos permanece-se como alguém que deve subordinação a outrem e, então, não detém autonomia para tomada de decisões. A Administração é um conceito, e para tanto, rompe com as cadeias rotuláveis de cargos, títulos e hierarquias, sendo assim é possível ser administrador sem ter um alto cargo, e o inverso é igualmente possível. O administrador(a) sabe que posições são temporárias e que não revela necessariamente autoridade ou capacidade, por esta razão, aprendem a viver em bandos, respeitando as diferenças e soluços da vida.

Administração não é para todos, é para um seleto grupo de desvairados artistas que não se contentam com as cores existentes e arriscam a inovar, criar e empreender. Os administradores almejam responder os anseios da sociedade oferecendo uma nova maneira de ser sociedade. Entretanto, é preciso considerar que nesta busca muitos encontraram um caminho de individualismo, consumismo e cinismo, e pior, conseguiram reproduzir tais desvirtudes em grande escala. Estes não representam a Administração, representam suas próprias egoístas ambições.

Administrador não é melhor que alguém, é apenas um alguém que se dispõe a planejar, organizar, dirigir e controlar as mais elementares situações da existência humana. Administração é por definição uma ação coletiva. Desta forma, o conhecimento das Ciências Administrativas não torna alguém superior, mas o torna responsável por muitos. Portanto, o que se requer de um administrador é a hombridade de não se esquecer de que “o homem forte defende a si mesmo, o homem mais forte defende aos outros” (O Segredo dos Animais, 2006, Nickelodeon Movies).

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 08 de Setembro de 2016]

sábado, 27 de agosto de 2016

Diálogos intermitentes


“Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça”.
Charles Chaplin (1889-1997)

A sensação de rapidez do mundo moderno faz-nos tornar obsoletos antes do tempo. A certeza de estarmos ultrapassados para esta geração não é apenas uma sensação esporádica ou especulativa, é uma afirmativa incontestável. Entretanto, permanecemos úteis a um sistema pugilista de competitividades em que se faz necessário ter perdedores para reafirmar a frágil grandeza dos atuais campeões. Tudo isto é parte intencional de estruturas simbólicas fortemente enrijecidas, que como considera Pierre Bourdieu, estratégias de jogo com resultados viciados, previsíveis e categorizantes. Neste sentido, é preciso treinar os perdedores para lutar para perder e assim reafirmar padrões midiáticos de hegemonias caritativas de sucesso e enriquecimento.

As fôrmas mudaram de tamanho inesperadamente e fez com que muitos não mais coubessem nos padrões modeladores de outrora. O mercado formal com sua seguridade não mais permanece sustentável numa sociedade docilmente indurável, ou como propõem Zygmunt Bauman, numa sociedade liquida. Os museus estáticos com obras de artes que recompõem a historicidade perdem lugar para a fugacidade de trinta segundos televisivos de uma propaganda qualquer. Não mais toleramos o preto no branco, precisamos de muitas cores, tantas que se torne impossível contar, tudo para nos perdermos numa multidão de informações ahistóricas que não conseguem formar, mas apenas aprisionar nossas percepções da vida coletiva. É assim que se adestra uma geração para viver para o trabalho.

O discurso uníssono comprova nossa incapacidade crítica de encontra respostas fora da cartilha dos senhores do feudo moderno. Por estes tempos tudo parece tão concordável e absolutista, como diria Milton Santos, estes são tempos de globalitarismos, de discurso único que fomenta uma consciência universal. Parece que tudo está posto: aquecimento global, terrorismo islâmico, globalização, supremacia estadunidense, corrupção tupiniquim, eleições eletrônicas, jornalismo imparcial e empresas com cases de sucesso. Por este viés as obviedades se dão como ditaduras sofistas em um mundo carente de convicções e cosmovisões.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 27 de Agosto de 2016]

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O esquecimento, a negação do passado e o silêncio


"podemos dizer que hoje, em nossa experiência como humanos, o passado não conta muito, pois não oferece fundamentos seguros para uma perspectiva de vida".
Zygmunt Bauman (1925- )

O esquecimento, a negação do passado e o silêncio são características do tempo presente, e sendo assim tornam-se produtora de cultura. É preciso que parta do pressuposto que a “memória não se reduz ao ato de recordar” (DELGADO, 2003, p. 17), e sendo assim se dá, essencialmente, na relação com o esquecimento e a negação do passado. Logo, analisar o esquecimento e o abandono do passado se torna fundamental no processo de reconstrução da memória. Então, se para Ricoeur (2007), “lembrar-se é, em grande parte, não esquecer” (p. 451), o inverso também se mostra funcional, ou seja, esquecer é, em grande parte, não se lembrar e, nesse caso, daquilo de que não se quer lembrar.

Segundo Ricoeur (2007) “o passado vivenciado é indestrutível” (p. 453), ou seja, permanece enquanto registro mnêmico, ainda que de forma inconsciente. Lombardi (2011) confirma tal ideia e acrescenta: “ao mesmo tempo em que a cultura é feita de memória, esta contraditoriamente também implica no esquecimento” (p. 77). Para o autor, a memória é “a possibilidade e capacidade de dispor dos conhecimentos passados” (Idem, p. 86). Sendo assim, o esquecimento e a memória são mecanismos capazes de conservar, reviver e restabelecer as atuais trajetórias histórico-sociais, pressupostos partilhados originariamente nos escritos de Ricoeur (2007), segundo os quais o esquecimento está intimamente relacionado à memória.

Na perspectiva de Jameson (2000) há uma crise de historicidade que é capaz de desvelar um diagnóstico cultural de esquizofrenia social. Para tanto, o autor afirma que “somos incapazes de unificar o passado, o presente e o futuro de nossa própria experiência biográfica” (p. 53). Para esse autor, o resultado estético dessa ruptura de temporalidade é o isolamento, é o fortalecimento do presente, numa espécie de materialidade das percepções e a perda da realidade, sendo que tudo se dá numa intensidade “alucinógena ou intoxicante” (Idem, p. 54).

Segundo Bauman (2011), a sociedade atual só consegue viver uma parte da história e “não se deixa integrar facilmente numa totalidade” (p. 97). Essa sensação de desapego ao passado e de virtualidade do futuro aponta para uma realidade do mundo do capitalismo emergido da lógica do consumismo, onde o imediatismo, a flexibilidade e a satisfação momentânea são discursos assimilados com naturalidade. Sendo assim, Bauman (2008) afirma que as âncoras estão flutuando.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 15 de Maio de 2016]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. História oral e narrativa: tempo, memória e identidades. Revista História Oral - Associação Brasileira de História Oral, n. 6, pp. 9-25, jul. 2003.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.
JAMESON, Frederick. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BAUMAN, Zygmunt. Vida em fragmentos: sobre ética pós-moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
LOMBARDI, José Claudinei [org]. História, memória e educação. Campinas: Alínea, 2011.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Um olhar sobre a tribalização juvenil


“Os velhos desconfiam da juventude porque foram jovens”.
William Shakespeare (1564-1616) 

Para Maffesoli (1998, p. 09) o movimento de tribalização é um “processo de desindividualização”. Sendo, portanto, capaz de socializar os indivíduos em grupos de afinidades provocando agrupamentos sociais. Para o autor o tribalismo é um resgate do arcadismo da sociedade pré-industrial que se ajuntavam em tribos para sobreviverem, o que provoca um sentimento coletivo nos indivíduos inseridos na mesma.

Segundo Martins (2004), são exemplos de tribos urbanas, tipicamente jovem: punks, shinheads, rapper, skaters, white powers, clubbers, grunges e góticos. Sendo que tais ritos de tribalização são mediados e fomentados, na atualidade, essencialmente via redes sociais. Abramo (2014, p. 46) expande a lista inserindo outras formas de manifestação da cultura juvenil, especialmente por meio da música: rock, heavy metal, reggae, hip hop e funk; e também por meio da dança: street dance e break; por fim, também a apresenta por meio do esporte: basquete de rua e skate. Sendo assim, Maffesoli (2010) afirma que o movimento de tribalização pode ser de ordem sexual, musical, religiosa, esportista, cultural e político.

Maffesoli (2010, p. 24) destaca a importância da tribo quanto construtora de identidade. Para o autor a tribo “impõe códigos, modos de vestir, práticas de linguagem”. Nos estudos de Pais (2004) acerca da juventude há um grande destaque para a noção de tribalização, suas representatividades juvenis e sua inserção confrontativa junto na realidade convencional. Segundo o autor o processo de tribalização funciona como esteios para a criação de novas realidades, realidades estas “subversivas em relação a realidade percepcionada” (PAIS, 2004, p. 16). Para o autor as tribos juvenis confrontam e põem em atrito diferentes realidades, e sendo assim muitos comportamentos dos jovens são percebidos como anómicos.

Para Pais (2004, p. 17) “as tribos geram um sentimento de pertença que assegura marcos conviviais que são garantes de afirmações identitárias”. Desta forma o autor acredita que este processo é produtor de “vínculos de sociabilidade e de integração social”. Por esta razão, o autor associa o processo de suposta subversão, ao que ele denomina de conversão tribal, por ser esta uma percepção mui peculiar e necessária para a sobrevivência dos jovens no contexto moderno. Maffesoli (2001, p. 79) acrescenta que: “Todo mundo é de um lugar, e crê, a partir deste lugar, ter ligações, mas para que este lugar e estas ligações assumam todo o seu significado, é preciso que sejam, realmente ou fantasiosamente, negados, superados, transgredidos. É uma marca do sentimento trágico da existência: nada se resolve numa superação sintética, tudo é vivido em tensão, na incompletude permanente”.

Dito isto, há de se repensar o movimento moderno de tribalização juvenil proposto por Maffesoli (1998) especialmente em dois aspectos, a saber: primeiro, a transitoriedade e provisoriedade da identificação tribal, pois como defende Roure (2011, p. 156) na atualidade os laços são estabelecidos “em torno de imagens descartáveis e objetos consumíveis oferecidos por uma cultura globalizante”. Sendo assim, a identificação coletiva, ou tribal, não seria uma desindividualização como propõe Maffesoli (1998), mas sim sinais de individualização contemporânea.

A segunda consideração sobre o pressuposto de tribalismo de Maffesoli (1998) se dá pelo fato de que as tribos urbanas juvenis podem não ser um agrupamento coletivo num sentido latto, mas sim um agrupamento de individualismos. Isto permite ponderar que a relação com a tribo se dá pelo interesse individualizado de reconhecimento social, disputa de poder e dominação simbólica. Desta forma o movimento de tribalização funcionaria não como um campo de fraternidade como propõe Maffesoli (1998), mais sim como um campo disputa, desclassificação e classificação.

Assim e simplesmente,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
[escrito em 20 de Março de 2016]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos: o Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.
MAFFESOLI, Michel. Saturação. São Paulo: Iluminuras, 2010.
MAFFESOLI, Michel. Sobre o Nomandismo: Vagabundagens Pós-Modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001.
MARTINS, Wilmont de Moura. Trilhas Juvenis: uma Análise das Práticas Espaciais dos Jovens em Goiânia. 2004. 134 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2004.
ABRAMO, Helena Wendel [org]. Estação Juventude: Conceitos Fundamentais – Pontos de Partida para uma Reflexão sobre Políticas Públicas de Juventude. Brasília: Secretaria Nacional de Juventude, 2014.
PAIS, José Machado [org]. Tribos Urbanas: Produção Artística e Identidades. São Paulo: Annablume, 2004.
ROURE, Glacy Queiroz de. Juventude, O Tempo Das Tribos e as Torcidas Organizadas. Revista Educativa. Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC GO), Goiânia, v. 14, n. 1, pp. 155-167, jan./jun. 2011.